Sistema desumano


| Tempo de leitura: 3 min
O Brasil é mesmo um País estranho. Enquanto o governo federal comemora o fato de que milhões hoje vivem com uma renda de R$ 120 por mês, ainda temos uma classe que age como se fosse uma categoria à parte. Há momentos em que parecemos um arremedo da Índia, onde vigora o sistema de castas: lá, as mais abastadas não se misturam com as inferiores. Há até ‘intocáveis’, que só podem se relacionar e socializar entre si. Um sistema perverso, que penaliza o indivíduo já no nascimento.
 
Aqui no Brasil está quase assim: enquanto senadores e deputados têm um plano de saúde ilimitado, pelo qual não pagam e lhes permite tratamento de saúde no Exterior — mesmo que for para cuidar de unha encravada —, o pequeno bebê francano Davi Miguel, de apenas seis meses, luta pela vida num leito da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Regional. O menino (que passou apenas cinco dias em casa após o seu nascimento) foi diagnosticado com uma doença rara nos intestinos que impede que seu organismo metabolize alimentos.
 
Os pais, Jesimar e Dinea Gama, só têm uma alternativa: um transplante do órgão afetado, cirurgia que é feita apenas nos Estados Unidos. Não há cura. Por causa da doença, o menino vem sendo alimentado por via intravenosa, mas o procedimento não deve se prolongar, já que a alimentação parenteral pode levar a uma insuficiência hepática que culminaria na sua morte. Recentemente, outro caso como o de Davi Miguel só teve uma solução quando a Justiça determinou que o governo custeasse o tratamento da paciente, a pequena Sofia Gonçalves de Lacerda. Ela está nos EUA e já passou por algumas cirurgias em todo o sistema digestivo para que consiga sobreviver. Não fosse isso, dificilmente poderia ter alguma esperança.
 
Não se pode entender a distância existente entre o tratamento dispensado a parlamentares — e seus familiares — ao de gente comum, como o filho de Jesimar e Dinea. É uma situação grave que, se contasse com a humanidade que o governo alardeia existir no sistema de saúde pública brasileiro, já poderia estar resolvido. O pequeno Davi Miguel não merece, logo no início de vida, passar por este verdadeiro calvário. É preciso que casos como este — mesmo que complexos ou dispendiosos — sejam tratados como prioridade. Os exemplos se repetem no Brasil, quando é necessária a ação da Justiça para que o paciente receba atenção e atendimento necessários para preservar sua vida.
 
Num País onde milhões de reais são desviados a cada dia, pela via da corrupção e da sonegação, seria muito mais humano buscar o bem estar de brasileiros que, como o garoto francano, ainda estão no início de sua vida, para que tenham condições de sobreviver, crescer e contribuir para o desenvolvimento do Brasil. Esperar que a (lenta) Justiça brasileira resolva a questão é mais do que desumano, é crudelíssimo. A função primordial do sistema público de saúde teria que ser preservar a vida, sem a necessidade de processos judiciais que costumam ser arrastar por meses, colocando em risco a vida de quem necessita de atendimento urgente.
 
email opiniao@comerciodafranca.com.br
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários