Ícaro tinha um caderno mágico que encontrou em um sonho e que ao acordar estava ali, na mesinha de fazer lição de casa.
Acontece que tudo que ele escrevia criava vida, e as letras davam de rolar pelas páginas sem nenhuma timidez. Sabem aquelas palavras que possuem outra palavra dentro? Pois é, mato era ato porque o M batia asas e voava; FACA virava VACA porque o F foi fazer fofoca. 0 o G e o Q viviam a discutir quem tinha maior importância, nem vou falar do H que vivia triste sem ter som nenhum e metia-se entre as palavras quando queria algum aconchego, nem sempre a letra X achava isso muito bom. O X era um cara zangado que não combinava muito com qualquer um, já o A, E,I,O,U tinham sempre presença garantida e adoravam fazer rimas e amizades.
A Cama virava AMA e saia a desenhar coraçõezinhos. Era uma bagunça e uma festa aquele caderno danado.
Com os números nada era lá muito diferente: viviam abraçando-se uns nos outros e eram separados por parênteses ou colchetes, Era um engorda e emagrece de sinais que ficava complicado saber o que era vezes e o que era mais.
Somente Ícaro tinha um caderno tão especial, tanto o caderno quanto o menino eram únicos.
Das margens do caderno fluíam rios, brotavam sonhos. As letras, os números, os pontos e até as vírgulas brincavam de cambalhotas lembrando palhaços de circo, e não raramente faziam o menino sorrir, e ele ali a olhar o caderno parecia estar em outro lugar, em um lugar onde somente ele podia estar. Eram sem qualquer duvida as páginas mais divertidas do mundo.
Só adulto chato não entendia que somente um garoto tão inteligente podia ter um caderno assim tão contente, capaz de fazer a gente viajar...
Milla Souza
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