Um simples gesto revelou o verdadeiro dom e paixão da francana Josiane Aparecida de Almeida: a música. Com 31 anos, seus olhos se enchem de lágrimas quando ela resgata na memória uma passagem de 25 anos atrás e recorda a coragem de sua mãe e o presente que ganhou da dupla sertaneja Rionegro e Solimões, que a inspira desde criança. Hoje, Josiane de Almeida encanta por onde passa com sua voz marcante e sua intimidade com o violão, instrumento que aprendeu a tocar, praticamente, sozinha.
“É curiosa esta minha paixão pela música. Me marcou muito porque sempre ouvia o radinho do meu pai antes de ir para a creche. Sempre gostei muito do Rionegro e Solimões. Me lembro que tinha seis anos e já era fã.”
A vida de Josiane e o seu amor pela música começaram a mudar no dia em que ela ouviu ao vivo os cantores que sempre escutava pelo rádio. Um pedido atendido com apreensão por sua mãe resultou em algo bem maior até mesmo do que a pequena Josi poderia imaginar. “Estava voltando com minha mãe do serviço dela e o Rionegro e Solimões estavam tocando na Concha Acústica, na praça do Centro. Pedi para ela deixar eu ver. Só que na época meu pai bebia bastante, tínhamos uma vida difícil e se ela chegasse um pouco tarde em casa, meu pai não gostava. Mesmo assim ela parou para vermos o show.”
Durante a apresentação na praça o Rionegro anunciou que ia dar uma bota “para uma menininha que estava toda de cor de rosa”. “Nunca tinha ganhado nada, a gente não tinha nada na época, meus sapatinhos eram usados e que ganhávamos dos outros. Pensei que era outra menina que também estava de rosa na plateia, mas ele disse que era para mim. Eles me chamaram no palco. Aquilo me tocou muito e serei grata pelo resto da vida por eles terem me escolhido.”
A emoção daquele momento realmente marcou Josiane e aflorou sua vontade de aprender a tocar violão. Mesmo sem recursos financeiros para fazer aulas, ela não desistiu e encontrou outra alternativa: aprender a tocar o instrumento por conta própria. “A partir daí, quis aprender a tocar violão, mas a gente não tinha dinheiro. Minha mãe tinha aqueles livrinhos e fui aprendendo por ali. Não conseguia pegar o violão, então deitava ele na cama e tocava”, disse Josiane, ao relembrar o início de sua história com a música.
Até então, Josi usava o instrumento de sua mãe, que com muita força de vontade, conseguiu inscrevê-la, então com 10 anos de idade, para ter aulas com uma professora profissional. Impressionado com o dom da filha, seu pai prometeu que a presentearia com um violão que ela poderia chamar de dela no dia de seu aniversário de 11 anos. Infelizmente, ele não conseguiu cumprir o prometido. Não deu tempo. Além disso as aulas não renderam bons frutos para a pequena Josi. “Meu pai me prometeu um violão. Só que ele não conseguiu me dar o violão no dia que ele tinha prometido, que era no meu aniversário de 11 anos, porque ele morreu 11 dias antes. Mas minha mãe comprou o violão e me deu. Com aquele violão entrei na aula com uma professora, mas, infelizmente, estas aulas não me acrescentaram. Costumo dizer que a professora tinha outros propósitos e ensinar não fazia parte deles.”
Persistência
Os obstáculos no caminho não a intimidaram, afinal a vontade de aprender era maior. ‘Passei a observar as pessoas tocarem, gravava e tentava repetir os sons no meu instrumento. Além disso voltei a ‘devorar’ as apostilas de música.” Aos 13 anos, Josi deu mais um importante passo e entrou para o coral de uma Igreja evangélica e continuou absorvendo o o conhecimento das pessoas.
Somente aos 17 anos, ela conseguiu pagar novamente aulas de música e isto graças ao dinheiro que juntava com as aulas que começou a ministrar para iniciantes do seu bairro, por um preço simbólico de R$ 5. “Dos 13 ao 17 anos tudo que aprendi foi sozinha. Depois, juntei dinheiro e fiz alguns meses de aula no conservatório. Fiz também um curso gratuito na Unesp e sempre corria atrás de outros. Aprendi do meu jeito.”
As aulas que não pode pagar contribuíram para o seu aprendizado e mostraram também que ela sabia o suficiente para ensinar aqueles que, de certa forma, precisam dela para aprender. Atualmente, Josiane ensina diversos alunos e se apresenta em barzinhos da cidade. “Hoje, a música, literalmente, me sustenta. Além das aulas, tenho as apresentações. Esta conquista de poder me sustentar e pagar as contas é muito gratificante. Viver de música não é fácil, mas faço por paixão e está dando certo.”
Apoio
Tímida, Josiane demorou acreditar que tinha talento. O reconhecimento precisou de um empurrãozinho de um ‘anjo da guarda’ que atende pelo nome de Rubens Mário de Souza. Ele apareceu em um difícil momento da vida de Josiane, mostrando que sua voz merecia ser conhecida. ‘Ele gravou o vídeo por brincadeira e hoje está com mais de 50 mil acessos na internet e não conheço nem mil pessoas. E nisso tudo teve mais elogios que críticas. Isto é muito bom porque não tem nada melhor do que alguém gostar do que você faz.’
Há três anos, Josiane cantando nos barzinhos. Ela também participou há alguns anos da Festa do Peão de Claraval e, mais recentemente, do Arraiá da Difusora. Durante sua participação na festa que comemorou os 52 anos da rádio, em junho, ela animou e emocionou os presentes, mesmo assim, Josi garante que a recompensa foi ela quem ganhou. “Foi muito especial. Sempre agradeço, de todo coração, porque estar em um evento que ajuda as pessoas e ao mesmo tempo tem uma grande visibilidade, não tem preço nenhum que pague.”
Depois de tanta força de vontade e conquistas, Josiane não para de sonhar. Atualmente, está trabalhando na produção de um CD próprio que já está na internet com 12 músicas, todas de sua autoria, com arranjos de Adriano Caetano. “É um CD simples, foi feito em um estúdio no fundo do quintal. Jamais pensei nisso tudo. As coisas vão acontecendo.”
Ao relembrar sua trajetória, Josi, entre sorrisos e lágrimas, resumiu seus 31 anos. “Talvez nada disso teria acontecido. Meu gosto pela música veio porque um músico me deu uma bota. A minha mãe é uma guerreira. Veio para Franca sem nada e conquistou muita coisa. Sou grata pelas oportunidades que Deus sempre me dá.”
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