Da porta do recinto onde fica a piscina coberta, o interno Antônio observava as atividades de hidroterapia da namorada, Raquel. Atento, aproveitava alguns momentos para se aproximar e acariciar os cabelos dela. “Ele tem ciúme de deixar ela vir sozinha”, disse a assistente social do Lar de Ofélia, Ana Paula dos Santos. Alheia aos cuidados do parceiro e muito à vontade, Raquel contava e perguntava aos visitantes do Comércio sobre vida íntima. “E você, vai casar? Vai... Então, vai lavar cuecas”, concluía, às gargalhadas. Enquanto isso, no outro canto, seu Mirim dava preferência à memória afetiva de sua época, quando tocava em frente o circo em que foi palhaço, malabarista e dono. “Sinto saudade dos shows do Tião Carreiro & Pardinho, do meu amigo Mazaroppi. O Mazaroppi era ‘bicha’”, disse sem se preocupar com o politicamente correto.
Após experimentarem a sensação de movimento livre de andadores e cadeiras de rodas, os idosos de Ofélia iam se levantando da piscina e tomando outros rumos. No pátio, rosas iam sendo colhidas disfarçadamente, tornando-se provas de amor em mãos de donzelas. “Esse é o seu Onório. Ele veio para cá para ficar junto com a mulher”, disse Ana Paula. “Tira uma foto nossa?”, pediu o romântico no momento de entregar o mimo à companheira.
Num banco, no mesmo pátio, os também casados “Tatu” - como gosta de ser chamado seu Ismael - e Laurinha aproveitavam o perfume das rosas. “Conheci ela (sic) aqui no Lar. Namoramos por um ano e meio e vi que gostava muito dela”, disse Tatu sobre como tudo aconteceu. Antes de se encontrarem, nunca haviam se casado. “O que era brincadeira virou coisa séria. De vez em quando a gente discute, mas eu gosto muito da vida de casada”, completou Laurinha.
Outra história de amor que sobrevive ao tempo é a de Dolores e Maria Aparecida. Com 101 anos, a primeira viu a filha de 79 anos mudar-se para o Lar atrás do aconchego materno, mesmo tendo filhos presentes em sua vida. “Gosto muito de ficar perto da minha mãe”, resumiu Maria. “Elas não se desgrudam! Se uma vai ver TV, a outra vai atrás. Se uma vai almoçar, a outra vai atrás. É uma história muito bonita”, comentou a colega Luzia, que acompanha a rotina das meninas.
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