Em meio a lares desfeitos e necessidades especiais que os impedem de levar uma vida solitária, ainda que assim o quisessem, ao menos 270 idosos de Franca vivem atualmente dentro dos muros de instituições locais que hoje chamam de casa. Ali, encontram na velhice a oportunidade de criar novos laços de amizade, irmandade e até mesmo conjugais, dando frescor à vida que ainda pulsa. A fim de contar as histórias que se escondem por trás dos sorrisos amarrotados pelo tempo e semblantes de paz e tormenta desses idosos, o Comércio lança nesta edição a série Lares de Franca, que irá acompanhar a rotina de quatro abrigos da cidade, começando pelo Lar de Ofélia, da Fundação Espírita Judas Iscariotes.
Pelos corredores do Lar de Ofélia, homens e mulheres cujas histórias se prolongaram por 60 anos ou mais caminham a passos lentos. Geralmente acompanhados por alguma debilidade, física ou mental. Também pesam sobre seus ombros laços familiares fragilizados ou totalmente rompidos; situação que a instituição luta para mudar. “Muitos recebem visitas de seus familiares. Hoje, podemos dizer que a família está bem mais presente na rotina deles devido a trabalhos que desenvolvemos através do serviço social. Notamos que, com isso, obtivemos a melhora do bem-estar e autoestima dos nossos idosos”, disse a assistente social Lígia Andrian Leal.
Há seis anos no Lar, Lígia transita como se estivesse em casa. Chama pelo nome cada um que encontra pelo caminho, garantindo conhecer a maioria dos 179 internos que vivem ali. “Bom dia, seu Moacir! O senhor ficaria mais bonito sem esse cigarro na boca.” A repreensão simpática conseguiu arrancar um sorriso do galanteador veterano de olhos azuis, pai de três filhos que preferiu não se casar. “Você sabe que me pedindo assim eu faço, né? Como é bonita essa moça!”, disse antes de ser interrompido. “Deixa de ser safado! Ela tem namorado”, declarou depressa dona Sônia Tenório, colega que então proseava animada a seu lado no pátio externo do Lar.
Em meio à paisagem residencial do Jardim Planalto, o prédio do Lar de Ofélia se mistura ao longe, mas logo se destaca conforme se aproxima. Isso porque, logo na entrada, pode-se ver pelas grades o banho de sol de muitas peles cansadas. No interior, as proporções se expandem. Dividido em quatro alas e mais de um andar, cada grupo do Lar de Ofélia procura passar o tempo conforme suas possibilidades. A parte feminina com frequência se reúne em encontro de oração seguido de bate papo. Vaidosas, as senhoras pediam para serem fotografadas enquanto ajeitam as bijuterias, se intimidando logo em seguida, já sob o foco das lentes da reportagem do Comércio durante uma visita.
Na parte masculina do prédio, a ordem do dia era o jogo de dominó e o “papo-furado”. Na ala dos idosos com Alzheimer, uns se distraiam com a TV, outros com o próprio silêncio e alguns com monólogos destinados a companheiros alheios à realidade do colega. Ou a de si próprio. Mesmo na intercorrência, ala onde se encontram os idosos debilitados, um esboço de descontração podia ser observado no colorido de amigos resgatados da infância. “Eu gosto das minhas bonecas, mas peguei birra daquele sapo”, disse dona Hélvia, que não mais se levanta da cama mas cultiva uma relação de amor e ódio com suas pelúcias.
Dia a dia
Independentemente da ala, a rotina começa cedo para quem vive ali. Logo pela manhã, senhoras e senhores recebem um bom banho e se alimentam por duas vezes antes do almoço. Depois, seguem para atividades diversas, como fisioterapia, hidroterapia e sessões de fonoaudiologia. Após o almoço, têm a opção de participar de oficinas de terapia ocupacional, como artes manuais e culinária. Aos sábados e domingos, quando não saem para visitar a família, recebem os voluntários que frequentam o Lar. “Eles programam sempre alguma atividade como forró, bingo e festinhas. Nessas ocasiões, eles aproveitam para namorar. Temos até um casal que se conheceu aqui dentro e se casou”, disse Lígia.
A instituição ainda promove passeios como piqueniques no Parque “Fernando Costa” e atividades no CCI (Centro de Convivência do Idoso).
Manutenção
Para garantir todos os serviços mais um quadro de 109 funcionários - que conta com médicos, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, equipe de enfermagem, fonoaudióloga, assistente social entre outros -, a instituição conta com convênios firmados com os governos municipal, estadual e federal. A internação é gratuita, solicitada pela própria família e possui fila de espera.
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