Uma fábula de La Fontaine


| Tempo de leitura: 2 min
La Fontaine
La Fontaine
O Sr. Pombo, o carteiro, trouxe um bilhete à Cegonha, em folha de pessegueiro, que ela soletrou, risonha: “Dona Raposa, a Vossência, envia muito saudar, aguardando a comparência de Vossência no jantar. Que às tantas do dia tal do corrente, se efetua no Retiro do Pardal, na rua da Catatua. Não diga nada ao correio e creia-me ao seu dispor. Traje: simples de passeio. R.S.F.F. (Responda se faz favor). 
 
É claro: à hora marcada, no dia tal, no bilhete, Dona Cegonha, apressada, lá seguiu para o banquete. Mas foi uma decepção, pois a Raposa, matreira, fez servir a refeição numa pedra de ribeira... E, enquanto a pobre Cegonha achava o caso bicudo, a Raposa, sem vergonha, tratava de comer tudo! Mas a Cegonha, à saída, despediu-se em tom amigo: - Gostei muito da comida! Almoce amanhã comigo! De manhãzinha, a Raposa, sempre cheia de apetite, não quis saber de outra coisa senão daquele convite. 
 
- Sim senhora! Bela mesa! – gritou logo, satisfeita – Cheira que é uma beleza! Há de me dar a receita... Bem digo eu, afinal, e a colegas dos melhores, que dona de casa igual não há nestes arredores! Pôs então o guardanapo, pensando de olhos em alvo, que havia de encher o papo graças a mais um papalvo... Já a Cegonha servia, prazenteira, o seu almoço numa bilha muito esguia e funda que nem um poço. Só um bico, desta vez, podia chegar ao fundo... Foi o que a Cegonha fez: rapou tudo num segundo. E fula, de olhar em brasa, a Raposa, como louca, teve de voltar a casa, fazendo cruzes na boca. Vingança é coisa mesquinha! Mas na vida quem faz mal paga às vezes a continha com juros e capital... 
 
 
La Fontaine (1621-1695) 
escritor francês que se especializou em escrever fábulas, gênero literário onde os personagens são animais.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários