Quem disse que Valesca Popozuda não é cultura? A pedagoga Jaqueline Conceição da Silva, de 28 anos, inspirou-se na funkeira para produzir seu mestrado pela PUC e, como consequência, foi convidada a apresentar tal dissertação na Universidade de Columbia, nos EUA. “Quando ouvi a Valesca Popozuda cantar 'my pussy é o poder' pela primeira vez, pensei: uau! Isso é mais profundo que Simone de Beauvoir”, afirmou a pedagoga que mora no Jardim Celeste, no bairro Campo Limpo, em São Paulo.
O problema de realizar este sonho de levar a cultura da periferia para o exterior era a falta de dinheiro. Você leu certo, era. Ao saber da vaquinha online organizada por Jaqueline para poder bancar a viagem, Valesca não pensou duas vezes e decidiu bancar parte da viagem da
pedagoga. “Quero arcar com metade do valor, se ela concordar. Fico muito feliz com o carinho dela e vou torcer pra ela conseguir. O trabalho deve ter ficado magnífico, pois o funk é bem amplo. Já peço uma cópia, pois depois eu quero ver e ler ele todinho”, disse a funkeira em entrevista ao portal Extra.
Jaqueline ficou espantada ao saber que teria a ajuda da cantora. “Espero conhecê-la, porque sou muito fã! Não sei o que me deixou mais bege, se foi o fato de ela contribuir ou de poder conhecê-la. Não sei o que me impactou mais. 'Tô' passada, disse Jaqueline.
O trabalho da pedagoga foca no funk, não para analisá-lo como gênero musical, mas sim como produto cultural que surge da juventude da periferia e da emancipação feminina. “A ideia do trabalho é pensar sobre a sociedade em que vivemos. Neste contexto, o gênero feminino é uma
oposição ao que é 'ser homem'. Assim, o nosso desejo enquanto mulher, de fazer isso ou não, também é relacionado através do que é o desejo para os homens. Então até que ponto dentro do funk, mesmo as mulheres podendo ter a liberdade de dizer que a 'b***** dela', significa de verdade uma liberdade sexual, inclusive sobre o próprio corpo e o que ele representa?”, questiona a pedagoga.
O foco do trabalho de Jaqueline é questionar se as mulheres são realmente livres, ou apenas reproduzem, sem perceber, o discurso opressor misógino revestido de uma pseudoliberdade. “Para mim, a Valesca é uma das mulheres que lida mais com essa dupla realidade nas músicas dela. Para uma mulher negra de periferia poder afirmar que 'dá para quem quiser', ou que hoje vai bancar e pode ostentar dinheiro, por exemplo, é um fato libertário, não podemos negar. A questão é até que ponto, na sociedade em que vivemos, isso pode ser realmente libertador, ou é só mais uma reprodução de como a mulher é vista”, observa a estudiosa.
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