“O município é intensamente dependente da indústria calçadista”. A frase do professor da Unesp Franca e coordenador do Mestrado Profissional em Planejamento e Análise de Políticas Públicas, Agnaldo de Sousa Barbosa, explica porque as demissões no setor calçadista provocam um “efeito cascata” na cidade. Segundo ele, Franca carece de investimentos na área tecnológica que poderiam contribuir para evitar consequências drásticas na economia. Confira abaixo a entrevista concedida pelo especialista ao Comércio.
Mesmo com o desenvolvimento de outros setores econômicos, as demissões do calçado ainda têm peso para abalar a economia local?
Sim, porque o peso do emprego industrial vinculado ao setor coureiro-calçadista ainda é bastante significativo. Segundo dados da Rais (Ministério do Trabalho), esse setor responde por cerca de 28% do emprego no município, número idêntico ao do setor de serviços. O comércio de um modo geral emprega cerca de 26% da mão-de-obra local. Acontece que em Franca comércio e serviços não se sustentam por si só, eles dependem da renda do trabalho industrial, que é o que os impulsiona. Apesar de uma certa mitificação surgida nos últimos tempos, Franca não é um pólo de comércio e de serviços na região; a porcentagem dos consumidores vindos de cidades vizinhas ainda é muito pequena. Então é a renda do operariado calçadista que sustenta estas atividades.
O setor comercial alega que as vendas cessaram após a Copa. Esse cenário é relativo a Franca ou ocorre em todo o país?
Esse cenário é extensivo a todo o país. Passada a euforia, há a realidade do cenário econômico internacional, da imprevisibilidade diante das eleições próximas... O que ocorre é que aqui é agravado por uma situação crônica de instabilidade do emprego, de renda média historicamente baixa. E não só a da indústria, onde 4/5 dos trabalhadores ganham até 2 salários mínimos, mas também a do comércio - mais de 3/4 dos trabalhadores ganham até 2 salários mínimos - e a do setor de serviços - quase 2/3 ganham até dois salários mínimos.
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