A missa campal de Corpus Christi, realizada em junho na Praça Nossa Senhora da Conceição em Franca, teve um significado especial para um grupo de fiéis. A celebração foi acompanhada pela primeira vez por deficientes que não podem escutar os diálogos e compreender os sons que compõem a solenidade. A inclusão dos surdos na cerimônia foi possível graças ao trabalho voluntário da técnica de enfermagem Lucimar Pereira Ferreira, 48.
Católica, ela atua como tradutora intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) da Pastoral dos Surdos da Diocese de Franca e participa de grandes celebrações da Igreja onde faz a tradução de todos os ritos, leituras e canções. O desejo de evangelizar através das mãos e se tornar útil para um grupo antes excluído surgiu em 2008, quando Lucimar participava de uma missa na Paróquia São Pedro, na Vila Europa e ficou sensibilizada com as dificuldades enfrentadas pelos surdos. Decidida em fazer algo por eles, procurou uma das deficientes auditivas e aprendeu com ela a língua de sinais. Em três meses, já estava posicionada próxima ao altar interpretando uma missa. “Aprendi rápido, tive facilidade com Libras. O padre Josenildo Almeida da Silva - que iniciou a Pastoral dos Surdos - diz que é um dom.”
Como tradutora intérprete católica, Lucimar disse que precisou conhecer ainda mais a Bíblia para fazer uma tradução mais voltada para a liturgia. Outro diferencial é em relação ao cânticos das missas, que Lucimar interpreta com leveza nas mãos. “A parte gestual precisa ser diferente para que os surdos possam distinguir. Uma leitura tem gestos mais sérios, já os cantos tem um gestual mais leve.”
Mais prática
A paixão pela linguagem de sinais e a vontade de aperfeiçoar ainda mais a técnica fizeram com que Lucimar também retornasse aos bancos escolares. Hoje, ela é formada em Letras e Literatura e pós-graduada em Libras e desde 2008 inseriu o trabalho de tradutora intérprete na área da Saúde.
Diretora técnica da Unidade Básica do Jardim ¶ngela Rosa, Lucimar passou a fazer a tradução de consultas, atendimentos de enfermagem e o acompanhamento de gestantes surdas. “Faço o elo entro o médico e o paciente. Recebemos surdos de várias partes da cidade, pois todos sabem que faço esse trabalho na rede.”
Nas mãos de Lucimar, os eventos ganham vida e voz. Tanto que além de missas e consultas, a voluntária também realiza a interpretação de cursos, palestras, catequeses, batizados, crismas e até casamentos. “As mãos são a boca e o ouvido para os surdos, por isso o intérprete precisa sempre estar bem posicionado, em um lugar na frente onde não há passagem de pessoas, caso contrário, é como se o microfone estivesse sempre falhando.”
Segundo ela, na área da Diocese de Franca há sete mil surdos, a maioria evangélicos. Atuantes na pastoral são em torno de dez, mas Lucimar disse que a quantidade não tem relevância para seu trabalho de tradutora intérprete. “Mesmo para uma pessoa, o trabalho faz diferença. Jesus disse ‘Ide e levai o evangelho a toda criatura’. Então é importante levar essa alegria, essa palavra também para os surdos independente da quantidade.”
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