Em busca do sobretudo perdido


| Tempo de leitura: 5 min
Era de cor cinza escuro e forrado com pele de lontra. Tinha o ar confortável das roupas de qualidade que resistem ao tempo. Na maioria das fotos legadas à posteridade, Marcel Proust (1871-1922) aparece vestido com o sobretudo famoso, presença elegante recortada em diferentes cenários. Esta roupa mítica tornou-se inseparável da imagem daquele que foi um dos maiores romancistas do século XX. Jean Cocteau e Paul Morand escreveram páginas tocantes a respeito. A jornalista italiana Lorenza Foschini, também. 
 
Apaixonadas leitora de Proust, pertencente a um segmento que cresce a cada ano e agrega os “proustianos”, Foschini sentiu-se tão atraída pela indumentária, que foi buscá- la no Museu Carnavalet, onde se encontra preservada numa caixa, na réplica do quarto do escritor. É por aí, no encontro do sobretudo, que a autora nos introduz em outro mundo, diferente e ao mesmo tempo colado ao do escritor, o universo do colecionador, pronto para qualquer coisa, disposto a todos os sacrifícios, desde que coloque as mãos em cartas, manuscritos, fotos com dedicatória e edições raras. Percorrendo a história de Jacques Guérin, e contando em detalhes suas peripécias para salvar não só o sobretudo, mas também centenas de páginas manuscritas e móveis que podem ser vistos hoje no Carnavalet, Foschini nos mostra uma bizarra história de família, construída com paixões disfarçadas, silêncios pesados e explícita homofobia. 
 
São duas as histórias que se contam. Uma, presente em todo o discurso, traduz a admiração da narradora por Proust. Outra, a que alimenta o relato, é a das peripécias do colecionador. Este, ainda jovem, ao ser operado de apendicite pelo médico Robert Proust, irmão de Marcel Proust, sete anos após a morte do escritor, entra em contato com documentos, papéis e objetos que se tornarão um fetiche que reunirá e guardará até quase o final de sua vida e em testamento destinará a museus e outras instituições.
 
 A narrativa em duas linhas se lê com muito interesse, graças aos artifícios de que lança mão a narradora em primeira pessoa, impondo situações de clímax entremeadas pela busca de anos ao acervo pessoal do escritor. Há o colecionador, o médico, os objetos desejados, e um intermediário no negócio, dono de um antiquário, Werner. E existe Marthe, cunhada de Proust, que tenta proteger “a honra de sua família” destruindo as cartas escritas pelo escritor a seus namorados. Proust era homossexual e a família nunca aceitou esta opção. Marthe reúne as cartas que acredita comprometedoras, e as queima, para desespero de Guérine desolação dos fãs. 
 
Foschini escreve de um jeito delicioso,romanceado, de forma que o leitor tende a se perguntar: será que isso aconteceu mesmo? A resposta é afirmativa e pode ser encontrada na página que antecede o primeiro capítulo, aberta com uma frase de Baudelaire: “O belo é sempre bizarro”. Explica a autora: “Este não é um conto imaginário; tudo aquilo que nele é descrito realmente aconteceu. Os protagonistas desta história existiram de verdade. Mas, ao reconstituir os acontecimentos, ao ler as cartas, na hora de conhecer mais de perto as pessoas que os viveram, descobri a importância que até os mínimos detalhes podem ter.”
 
 Jacques Guérin morreu quase centenário em 2000. Foi célebre perfumista, que herdou da mãe um negócio milionário, a Parfum d’Orsay. Colecionador insaciável de manuscritos de Rimbaud, Apollinaire, Radiguet, Satie e outros, foi reverenciado pelo polêmico Jean Genet, que lhe dedicou o estranho Querelle de Brest, publicado em 1975. 
 
Guérin amava especialmente Proust e durante décadas correu atrás de tudo que pôde reunir a respeito do autor de Em busca do tempo perdido. Não é exagero dizer que salvou grande parte do que hoje se encontra no Carnavalet. Dizem que acompanhava diariamente os obituários dos jornais parisienses e quando descobria que o morto tinha pertencido ao grupo próximo do romancista, ia ao sepultamento para ver se encontrava notícias de alguma relíquia. É numa dessas ocasiões que ele conhece Werner, o dono da loja de antiguidades que lhe diz ter ganhado da cunhada de Proust o famoso sobretudo que dá início à história e empresta o título ao documentário. 
 
 Por ocasião do lançamento, falou-se muito do livro da italiana, que ganhou tradução em várias línguas. Dele disse o crítico Edmund Withe ser “precioso, delicado, fascinante,” situando-o no mesmo nível de O botão de Pouchkin, de Serena Vitale, e de O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. Maior elogio haverá? 
 
 
CURRÍCULO RICO
 
Lorenza Foschini nasceu em Nápoles em 1949, mas vive em Roma há muitos anos. Formada em filosofia , em 1977 começa a trabalhar na RAI ( Rede Italiana de Televisão) afiliada de Nápoles . Três anos depois, o diretor do programa GRL, o noticiário mais visto então na telinha, a chama a Roma, para dirigir a versão radiofônica do programa. Ela deveria conduzir a seção dedicada às Artes, o que aceita, ocupando-se disso até 1987. Neste ano, a convite do conhecido diretor Antonio Ghirelli, passa a assessorar, junto com Alberto La Volpe, a edição noturna de respeitado telejornal do país. Em seguida, alçada ao posto de vaticanista, segue o Papa Woityla em todo o mundo.
 
Em 1994 o diretor Giovani Minoli, da RAI2, a convida para apresentar o programa Mistério, grande sucesso de público durante um ano. Dois anos depois Foschini vai para a RAI3, onde conduz o programa Il filo de Arianna. No começo de 2004 torna-se vice-diretora da RAI Notte, onde produz muitos documentários_ A Pequena História, Lição de Democracia, Lição de Arqueologia, onde entrevista especialistas.
 
Em 1997, aproveitando o sucesso televisivo de Mistério, publica seu primeiro livro, Mistério do fim do milênio, vencedor do importante prêmio Scanno. No ano seguinte traduz para o italiano alguns inéditos de Proust ,encontrados naquele ano, e dá ao livro o sugestivo nome de Retorno a Guermantes. Em 2008 publica Il cappotto di Proust, reeditado em 2010 pela editora Mondadori. O livro alcança grande repercussão e logo é traduzido para o francês, inglês, italiano, alemão, turco, espanhol. Em português, saiu pela Editora Rocco. Neste mesmo ano a jornalista, aproveitando sua experiência com as entrevistas televisivas, publica em parceria com o sociólogo Giovanni Sartori Lições de Democracia, que também ganhou vários prêmios.
 
Lorenza Foschini é muito conhecida e querida na Itália.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários