1º romance: Vanessa Maranha traz a público 'contagem regressiva'


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Vanessa Maranha traz a público contagem regressiva,  seu primeiro romance, que será lançado na noite de hoje
Vanessa Maranha traz a público contagem regressiva, seu primeiro romance, que será lançado na noite de hoje
Há três anos - entre a concepção de contos, lançamento de livros e atribuições das rotinas familiar e profissional - a escritora Vanessa Maranha veio trabalhando na criação de seu primeiro romance. Mesmo escrito em minúsculas, contagem regressiva trouxe à escritora desafios em letras garrafais, já que de uma só vez, Vanessa teve de abandonar a zona de conforto estabelecida com os gêneros ‘conto’ e ‘feminino’. No romance, ela decide vestir a pele de um homem para falar sobre a tormenta da velhice numa narrativa oposta ao tempo cronológico. “O livro é dividido como numa contagem regressiva. Inicia-se do final, tratando da velhice atormentada de João. Depois pincela a juventude e termina na infância. O leitor compreenderá a velhice do personagem quando souber de sua infância. Foi um exercício, para mim, estar na voz de um homem”, revela.
 
Contagem regressiva ficou finalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014, sendo selecionado dentre 430 inscritos para a peneira final dos 30 melhores. A obra é editada pelo Selo Off Flip, de Paraty (RJ). 
 
No lançamento de hoje, marcado para as 19h30 na Livraria Pé da Letra, o ambiente será de descontração e apreciação da cultura. Durante o evento, o percussionista Marquinho Sabino fará apresentação musical enquanto a Cia. Terceira Imagem, de jovens atores teatrais, dirigida por Tiago de Paula Rosário, promoverá leituras dramáticas e rápidas de variados trechos do livro.
 
Você diz que foi um exercício vestir a pele de um homem para escrever o livro. O que motivou este desafio? Por que escolheu uma voz masculina para contar seu primeiro romance?
Para fazer um exercício de mimese e mergulhar no romanesco levando poucos resquícios de mim mesma, já que a primeira parte da narrativa se dá em primeira pessoa. Eu quis vestir-me de outra pessoa, de outro sexo, outra idade, com diversa visão de mundo e de homem, dar-lhe uma voz e saber como eu me movimentaria dentro e em torno disto. Você também abandona sua zona de conforto ao deixar os contos e arriscar-se num romance. 
 
Neste ponto, de arriscar-se num romance, o que se mostrou mais excitante? Quanto ao oposto: houve alguma decepção com o gênero?
O conto é um gênero distinto do romance. Ele se resolve rapidamente, deve ser intenso e muito significativo, concentrar sentidos sem fazer sobrepesar o texto. Em geral se escreve o conto de um só fôlego. A passagem para o romance foi calculadamente gradual. Fui trabalhando contos mais extensos, convivendo tempo maior com os personagens, modulando a atmosfera, indo para as noveletas. Muitos dos meus contos maiores são ensaios, êmulos de romances que não fecundaram. O romance é um gênero que pede adesão e fôlego. O autor terá de conviver com ele, se aprofundar no personagem e estender o enredo, criar desdobramentos. É mais excitante escrever romances, ainda que eu seja apaixonada pelo gênero conto. Uma vez ouvi o escritor Salman Rushdie dizer que o autor só começa a se sentir dentro do romance quando transpõe a quinquagésima página. Concordo. É preciso dominar o motor da história e sentir que há consistência e desejo de ir além, como se fosse um lugar real, com vidas a decidir. 
 
Até que ponto você teve de se tornar íntima da velhice para contar essa história? 
Não fiz nenhum laboratório. A criação do personagem se deu de forma empírica, a partir da observação do meu entorno e de alguma compaixão em relação à percepção cada vez mais clara de que somos todos nós hóspedes do tempo, transitórios e, sim, envelhecemos. A cada dia, confrontados com a velocidade estonteante da vida.
 
É uma afirmação sua que “a tônica da história é o antídoto contra a morte.” O que seria um ‘antídoto da morte’?
Na infância, o personagem João perdeu o avô Tarcísio. Essa morte o deixou um tanto órfão e, em suas fantasias de criança, ele buscava formas de ressuscitar os mortos. Fazia experiências com insetos e pequenos animais, inclusive, tinha um anjo da guarda, a quem pedia receitas para reavivar os mortos. Esse antídoto é fantasioso, mas haverá correlação simbólica dele na velhice de João.
 
O que esperar de João?
Com João, tentei construir uma subjetividade verossímil. Um homem contraditório de traços obsessivos. Tão rabugento que às vezes chega a ser divertido. Com uma visão de mundo às vezes de lucidez cortante, noutras, trazendo distorções marcantes e até grotescas. É um livro de afetos.

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