Júlia detestava pentear seus cabelos longos e por isso sua mãe vivia correndo atrás dela com uma escova na mão – grande e redonda a escova.
No banho também as duas entravam em desespero, era um tormento diário de mãe filha, da hora do shampoo a hora do condicionador nada era divertido. Júlia gostava de desembaraçar os fios usando apenas os seus longos dedos finos, gostava somente do cafuné que ganhava nesse momento, sem gostar de mais nada.
Acontece que um dia a mamãe da menina cansou de correr atrás dela e deixou para lá as presilhas que levava na mão e toda a gritaria, deixou que a menina tivesse em seus cabelos quantos nós quisesse- eram férias.
Júlia brincou no jardim, entre as margaridas, por baixo do pé de maracujá, com os pés no chão, por flores e frutos, balançou-se nos galhos das árvores e rolou nas folhas e sentiu-se em total liberdade. Ao chegar a casa, deitou e dormiu sem banho e só por isso achou que já era a dona do mundo. Julia nem notou, que em meio a essa alegria toda, um casulo ficou preso na sua cabeleira e dormiram os dois juntos deitados em seu travesseiro.
Pela manhã a menina acordou a hora que quis e levantou-se atormentada por uma coceirinha na cabeça. Sentou-se a mesa e o cabelo estava todo emaranhado num coquinho, um coça aqui e um coça acolá e eis que saem duas asinhas coloridas do meio daquela fuzarca. Júlia levou um baita susto e depois todos caíram na gargalhada.
A menina correu para o banho, pegou suas próprias presilhinhas e saiu de lá com o bom e velho cheiro de banho. Sentou-se no colo da mãe com aquela mesma escova redonda e grande do começo desta estória.
Nunca mais Júlia quis ser tão livre a ponto de criar borboleta nos cabelos.
Milla Souza
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