Com base nas estatísticas e no comportamento dos lojistas na 46ª Francal (Feira Internacional da Moda em Calçados e Acessórios), que terminou na última sexta-feira, 18, em Sã Paulo, o presidente do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), José Carlos Brigagão do Couto, foi categórico em afirmar que a indústria calçadista de Franca não terminará 2014 com bons resultados.
Segundo ele, o primeiro semestre foi perdido por causa do não crescimento da economia e de eventos que barraram o consumo, como o Carnaval, que neste ano foi mais tarde, em março, e a Copa do Mundo. A única esperança que existia de salvar o ano dos calçadistas eram as vendas durante os quatro dias da Francal.
Mas elas não se concretizaram como o esperado. Segundo os calçadistas de Franca, a visitação no evento assim como a quantidade de pedidos efetivados ficaram abaixo do esperado e da quantidade alcançada em 2013.
As tradicionais fábricas da cidade reconheceram que o problema não foi com a feira e sim com a atual situação econômica e afirmaram que o segundo semestre não será fácil para o setor.
A Jotapê, por exemplo, aguardará a entrada de agosto para definir seu futuro. Na feira, a marca vendeu 20% menos do que a meta programada. Preocupado com os rumos do mercado, Brigagão disse que Franca deve se preparar. Mais demissões neste segundo semestre deverão acontecer. Ele orientou os empresários do setor a operarem com cautela. Para o presidente do SindiFranca, 2014 terá o pior resultado desde a crise de 2008. Para embasar a previsão pessimista, ele cita os dados do Caged (Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados) divulgados pelo Ministério do Trabalho que mostram que a indústria de transformação da cidade perdeu mais de 400 vagas somente no último mês de junho. Antes, em maio, o saldo já havia sido negativo com outros 159 postos de trabalho fechados.
Sem papas na língua, o sindicalista culpou o atual governo pela situação e por não criar medidas favoráveis ao setor. “A ausência de reformas e o problema do dólar afetou nossas exportações. Além disso, tem a questão do couro que está sendo praticamente 100% exportado, sobrando apenas o couro de sétima categoria, a alta inflação e as taxas de juros elevadas. É uma soma de fatores negativos.”
Em seus seis anos à frente do Sindifranca, Brigagão disse nunca ter vivido um ano tão difícil. Ele teme que o cenário ruim se estenda para 2015 e ocorra uma perda definitiva de mão-de-obra da indústria calçadista para outros setores. “Não somos pessimistas, somos realistas.”
Na Francal, muito se falou sobre as perdas da indústria de calçados brasileira no primeiro semestre de 2014. Para os empresários de Franca, como foram os primeiros seis meses do ano?
Durante nove anos, sempre persistiu um aumento de emprego na cidade no primeiro semestre. Imaginávamos que este ano iria começar bem novamente, mas tivemos uma surpresa. Em maio, o emprego diminuiu a ponto de atingir um saldo negativo. O consumo ficou estagnado nestes primeiros seis meses. Os lojistas não venderam e, claro, isso afetou a indústria de calçados, que freou a produção. Sapato tem baixo valor agregado, as pessoas têm condições de comprar e pagar em dois, três pagamentos, por ser um valor considerado pequeno diante de produtos como da linha branca, geladeiras e eletrodomésticos, mas, mesmo assim, as vendas ficaram retraídas.
Como o Sindifranca vê esses resultados negativos no primeiro semestre e as demissões?
As demissões infelizmente estão ocorrendo. Não acredito que haverá melhoras até o fechamento do ano. Elas ocorrem porque a produção está amarrada ao contigente de mão-de-obra. Se há queda de produção, automaticamente cai o número de trabalhadores. Calculamos uma produção média de 5,5 pares por funcionário. Mas ao compararmos nossos números com o cenário nacional, percebemos que os dados batem. Não é somente no polo calçadista de Franca que a situação está difícil. A situação é preocupante para várias outras fábricas de diferentes regiões. O setor calçadista brasileiro está vivendo um momento muito complicado.
As demissões, então, continuarão nos próximos meses?
Pelo quadro que estamos desenhando, as demissões continuarão sim. Teremos ainda muitas rescisões. Diferente da média que sempre alcançávamos de 27 mil a 28 mil trabalhadores com carteira assinada no fim do ano, em 2014 acredito que terminaremos com, no máximo, 22 mil funcionários se continuar nesse patamar. Serão 5 mil postos de trabalho a menos. É uma queda muito grande, bem abaixo da capacidade instalada da indústria calçadista da cidade que já chegou a empregar 35 mil trabalhadores. Hoje para chegar novamente nesse quadro seria necessário um avanço enorme de várias partes, de modo especial do Governo. Analisando as estatísticas, depois de 2000, a indústria só chegou a ter 30 mil sapateiros em setembro e outubro de 2013, ainda assim fechamos o ano em 28 mil funcionários registrados. Se formos comparar, a situação será a pior desde 2008, quando houve a crise em setembro e terminamos o ano com 17 mil trabalhadores. Depois só fomos recuperar em outubro de 2010, a partir daí, passamos a crescer novamente e fomos por três anos a primeira cidade, depois de São Paulo e Campinas, a gerar o maior número de vagas. Infelizmente em 2014, voltaremos a cair. A nossa triste expectativa é que a crise se estenda pelo ano de 2015, ainda mais forte.
Com este volume de demissões, qual será o tamanho da queda na produção de calçados no polo de Franca?
Não iremos atingir os números do ano passado. 2014 já ficou comprometido. Com o consumo reduzido e as fábricas demitindo, não teremos condições de recuperar ou atingirmos a produção de 2013 que foi de 39,5 milhões de pares. A nossa expectativa anterior de 38,3 milhões de pares tende a ficar menor. Nem mesmo a Francal ajudará, pois feira nenhuma garante uma produção semestral, ela garante, no máximo, três meses de produção. Na situação que estamos hoje, essa colaboração representará muito pouco. Nós analisamos o setor e não apenas os casos pontuais. Existem fábricas que estão vendendo muito bem, até mesmo antes da Francal, mas a maioria não está. Essas ilhas de excelências que existem não condizem com a realidade do setor para a maioria das fábricas.
O consumo ficou estagnado no mercado interno. No externo, como se comportaram as exportações?
No mercado interno temos uma outra agravante que é a concorrência do sapato asiático aumentando sua participação aqui dentro, porque não temos as mesmas condições que eles. Dos 38 milhões de pares importados no ano passado, 4 milhões são calçados de couro e isso afeta Franca. Em relação ao mercado externo, as exportações também vem caindo e, se não bastasse a concorrência dos asiáticos, temos ainda questão do dólar. Hoje a exportação representa apenas 4,1% da nossa produção. No passado, exportávamos muito mais. Em 1993 eram 15 milhões de pares, atualmente são 3 milhões e esse número não cresce e nada garante que iremos repetir o resultado do ano passado.
O presidente da Francal, Abdala Jamil Abdala, disse na cerimônia de abertura da feira que o resultado da Francal marcaria o começo do ano. Esse pontapé ocorreu?
Quando ele falou em começo do ano, quis dizer que, como estamos vindo de um período de retração, a Francal poderia alavancar a produção do segundo semestre em Franca e no resto do Brasil. Mas infelizmente a feira não vai salvar o ano porque a própria Francal obteve um resultado menor neste ano em consequência de toda conjuntura econômica. Muitas empresas não vieram porque, com esse panorama, as indústrias não se arriscam a fazer mais despesas. É um ano totalmente atípico e não sabemos o que irá acontecer. Se tivermos segundo turno, vamos levar as eleições para novembro e, mesmo se o governo atual ganhar, ele não fará grandes transformações imediatamente. Primeiramente, ele irá compor seu ministério para depois anunciar medidas que podem beneficiar o setor, mas não acredito fará uma reforma tributária profunda que resolverá a guerra fiscal, a exoneração do setor calçadista e o custo Brasil.
Diante de todo esse cenário negativo, qual será o futuro das fábricas de Franca?
Haverá com certeza uma reação em cadeia. Quando se perde produção, o serviço terceirizado também é afetado. Não acredito que empresas de Franca irão migrar para outros Estados, porque o problema ocorre em nível nacional. todos os pólos calçadistas estão sofrendo como Franca. A cidade gera muito emprego, porque não temos concorrentes à altura dentro da América do Sul, temos a concorrência da China, mas ela não chegou a um patamar que possa comprometer toda a nossa produção. Diante desse cenário, muitas empresas podem parar a produção, chegar à falência depende da situação de cada uma, mas torcemos para que isso não aconteça. Penso que algumas irão, sim, zerar a produção e aguardar o que vai acontecer para depois voltar a produzir. A saída dos calçadistas é acreditar, ponderar e não investir. Eles devem reduzir a produção até atingir um ponto de equilíbrio.
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