Mente inquisitiva


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Cursava o nível Clássico no IETC. A professora de Filosofia chegou, certa manhã, entrou na sala de aula, tomou a cadeira e colocou-a sobre a mesa. E propôs à classe:
 
- Redijam um texto em que consigam argumentar que esta cadeira não existe.
 
Espanto geral. Mas como? A cadeira estava lá, visível, palpável, concretíssima como uma estátua de jardim. Mas com aquela professora ninguém ousava discutir ou desacatar uma ordem sua.
 
Pusemo-nos em trabalho de reflexão e redação.
 
André, o menino mais quieto de todos, sempre sozinho no pátio, óculos de lentes muito grossas, cabelo ruivo espetado e bochechas salpicadas de sardas escreveu alguma coisa em menos de dez segundos, virou a folha, cruzou os braços e se mostrou pronto para entregar sua redação.
 
A professora de Filosofia, surpresa, pediu-lhe que entregasse já seu texto.
 
O menino assim fez.
 
A professora apanhou a folha, virou-a, leu e sorriu. Depois mostrou para a classe a genialidade da resposta. Lá estava escrito:
 
- Mas qual cadeira?
 
Era assim. Havia professores variados, um para cada disciplina, cada um com sua mania peculiar que o caracterizava e o distinguia fortemente do outro. A professora de História, não aquela que só falava da Mesopotâmia e dos rios Tigre e Eufrates, mas aquela outra, de olhos lânguidos à Cleópatra, lembrava-me pirâmides e faraós. Sentia-me inquieto na carteira. A aula de Educação Física começava às 6 da manhã, e só mais tarde é que pude comparar o professor dessa matéria com o sargento que tive quando servi ao Tiro de Guerra.
 
Na escola, as aulas seguiam normais, sem grandes atividades num bom espaço de minha adolescência. Foi quando aconteceu um dos momentos mais profícuos de minha vida. O professor de Matemática, seu Hilário, disse que daria a nota máxima a qualquer aluno da turma que fizesse uma pergunta inteligente. E explicou: “Um aluno que faz perguntas é mais importante que um professor que responde.”
 
Até então eu tinha para mim que a inteligência consistia em informar, em dar respostas, e não de formular perguntas. Naquele instante, comecei a ver que a pergunta, tanto quanto a resposta, faz parte da construção do conhecimento e não raro é a parte mais importante!
 
Os homens vinham admitindo desde o começo dos tempos que um objeto mais pesado caía mais depressa que outro mais leve, até que Galileu veio e disse: “Mas cai mesmo?” Os homens se maravilhavam diante do pescoço de uma girafa, séculos antes de Darwin ter perguntado: “Por quê?”
 
Já se passaram décadas desde que meu velho professor me deixou atônito com a sua afirmação. Durante um bom tempo eu mesmo pude exercer o magistério. A maioria dos fatos que a profissão de professor me ensinou creio que se encontra escondida em alguma parte de meu cérebro. Mas não me esqueci de que um aluno que faz perguntas inteligentes leva o professor a se esforçar por respondê-las. Todos saem ganhando.
 
É uma pena, lamento mesmo, que nos dias de hoje não há mais perguntadores como aquele rapazinho sardento com a pergunta “Mas qual cadeira?” Basta ir ao Google, digitar “física quântica” e você terá a resposta em segundos, baseada numa publicação atualizada há 24 horas. Pode ser um avanço, mas este método informatizado cria mentes inquisitivas?
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

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