Promiscuidade partidária


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O sistema político brasileiro tornou-se, nos últimos anos, um verdadeiro balaio de gatos. Não se identificam nos partidos que aí estão quaisquer ideologia, orientação ou mesmo convergências de ideais. Por causa da legislação atual, criam-se partidos com grande facilidade, os quais acabam se tornando legendas de aluguel, servindo principalmente para aumentar o tempo da propaganda eleitoral de TV. Atualmente, registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), temos 32 agremiações partidárias. Destas, pelo menos oito trazem “trabalhista” ou ‘trabalho’ no nome e nove estampam “socialista” ou “social” na sigla. 
 
Esta situação finda por permitir uma verdadeira promiscuidade partidária, onde um ‘democrático’ vira ‘socialista’ do dia para a noite sem ao menos conhecer o estatuto partidário. Aliás, há estatutos de partidos diferentes que são exatamente iguais, como se pode observar numa pesquisa junto ao TSE.
 
Diante deste quadro causa estranheza o terceiro vídeo disponibilizado pelo Instituto Lula, contendo declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desta vez ele defende uma reforma política feita por iniciativa popular que acabe com “partidos laranja” e “partidos de aluguel”. Ele diz claramente que a intenção é “acabar com legendas que utilizam seu tempo para fazer negócio”. O estranhamento é que justamente agora, a poucos meses das eleições de outubro, Lula resolve defender algo que, como presidente da República por dois mandatos, contando com uma base aliada ampla, teve oportunidade de patrocinar. Porém, fez ouvidos moucos aos anseios populares. Afinal, ele vinha — e o governo de sua sucessora também o faz — se valendo destes partidos, na base do toma-lá-dá-cá.
 
Mesmo quando as grandes manifestações brasileiras pediam reformas, Lula se calou. Ele não é burro e entendeu a necessidade de buscar a simpatia popular para o Partido dos Trabalhadores e o governo de Dilma Rousseff, que tenta a reeleição — ambos combalidos pelo julgamento do Mensalão, pelos escândalos da Petrobras e pelos rumos da economia desde o ano passado. Um discurso afinado com os anseios populares, crê Lula, será capaz de afastar o perigo de derrota da atual ocupante do Palácio do Planalto e de aliados como Alexandre Padilha, Lindbergh Farias e Gleisi Hoffman, candidatos em três dos maiores colégios eleitorais do País (São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná). Mesmo tendo outros aliados nestes Estados com chances de vitória, o PT perderia ainda mais a visibilidade.
 
Lula ainda defende a eleição de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Os parlamentares eleitos para a reforma não poderiam se candidatar para outros cargos no pleito seguinte. Quase a mesma proposta de Dilma Rousseff um ano atrás, na ressaca das manifestações que sacudiram o País. Ela propôs um plebiscito que foi amplamente rejeitado, inclusive pela base aliada. Assim, o ex-presidente mostra que está jogando para a plateia, de olho nas urnas. Seus atos, quando na chefia da Nação, mostram que suas ações são diametralmente opostas ao que ele diz publicamente.
 
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