A crise hídrica atinge fortemente o Interior Paulista sob vários aspectos, da irrigação na agricultura ao abastecimento urbano e com reflexos até mesmo no turismo em cidades que dependem de suas cachoeiras. Sorocaba e Itu são duas cidades num raio de 100 quilômetros da Capital que apresentam problemas de abastecimento de água por causa da falta de chuvas ao longo deste ano, segundo reportagem publicada esta semana pelo jornal Cruzeiro do Sul, da Rede APJ (Associação Paulista de Jornais). Moradores do centro de Itu entraram em rodízio desde fevereiro. Os reservatórios da cidade operam com índice de 4% apenas, segundo a concessionária local. Em Sorocaba, moradores de parte da cidade também começaram a receber água em horários alternados, medida adotada pelo órgão municipal a partir da constatação de que a represa chegou a um nível crítico, com média de 50 centímetros, quando o normal seria de 2 metros de profundidade. Outros dois mananciais que abastecem a cidade também apresentam níveis abaixo da média.
Em Mogi das Cruzes, o cenário das cinco barragens que compõem o sistema regional é “desolador”, segundo revela O Diário. Depois de percorrer os locais pela terceira vez este ano, o jornal chama a atenção com palavras e fotos sobre o contraste de uma imensa área antes alagada, mas agora desértica. “A sensação, em alguns pontos, é de se observar um pântano. Em outros, de caatinga”, diz a reportagem. Os peixes desapareceram, para desgosto dos pescadores, e moradores já se veem podendo usar a pé ou a cavalo antigas estradas que estavam debaixo d’água há mais de 20 anos e que reapareceram com a estiagem, a exemplo da barragem do Rio Jundiaí. As represas nunca estiveram tão secas e as comunidades que vivem no entorno estão assustadas.
Cachoeiras da estância de São Pedro ficaram secas, segundo apurou o Jornal de Piracicaba. O fato reduziu a visitação turística do local e para empresários do ramo hoteleiro a situação é preocupante pois elas ficam em uma região onde é possível realizar trilhas ecológicas. Uma das principais atrações turísticas de Piracicaba, o passeio de barco até Tanquã, conhecido como “minipantanal paulista”, também foi afetado. Junho registrou recorde de estiagem nos últimos 12 anos com apenas 1,4 milímetro de chuva.
No Noroeste paulista, as chuvas vieram de forma escassa, ao contrário da expectativa e com isso a cada dia o problema de baixa oferta de água de superfície se agrava ainda mais do ponto de vista da agricultura, segundo relatório divulgado ontem pela área de Hidráulica e Irrigação da Unesp em Ilha Solteira. Na região, o último sinal de chuva que ocorreu na região, entre os dias 9 e 10 de julho, não alcançou nem a marca de 10 milímetros, que é o mínimo necessário para que seja considerado efetivamente um “dia de chuva”.
Na avaliação dos técnicos, o volume de chuvas até o momento está bem abaixo da média histórica, que tem um total de chuvas para os seis primeiros meses do ano igual a 775 milímetros. Em 2013, esse total ficou em 700 mm, mas em 2014 chegou apenas a 610 mm. Depois de janeiro, junho foi o mês que teve o pior desempenho no quesito chuvas: a diferença foi de 75 mm em relação ao histórico, com uma precipitação média entre as estações monitoradas pela Unesp de 7 mm em 2014 contra 81 mm na média histórica. A situação crítica de oferta de água traz prejuízos para toda a agropecuária, mesmo a irrigada, segundo o pesquisador Fernando Braz Tangerino Hernandez.
Enquanto isso, a Sabesp anunciou esta semana que investe anualmente R$ 2,5 bilhões para universalizar o saneamento no Estado de São Paulo até o fim da década. Dos 645 municípios, a empresa é responsável pelos serviços de 364 cidades, sendo que 264 já estão universalizadas, o que significa na prática 100% de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos.
Wilson Marini
Jornalista - email wmarini@apj.inf.br
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