A violência, infelizmente hoje enraizada no cotidiano do brasileiro, já passou de um ponto que poderia ser considerado suportável. Hoje, cada cidadão é assolado por ela até mesmo dentro de suas casas, sem que haja qualquer iniciativa capaz de sinalizar alguma medida efetiva em favor da garantia de tranquilidade. Não apenas o crime é responsável pelos altos índices registrados no País: também o trânsito torna-se mais uma equação deste problema, matando mais a cada doze meses do que conflitos armados que duram anos em países da África e do Oriente Médio.
Hoje, como se pode constatar na presente edição do Comércio, nem mesmo os trabalhadores francanos estão tendo sossego para cumprirem sua jornada diária em busca dos salários. Na manhã de ontem, uma ação criminosa deixou a população de vários bairros da zona sul (englobando os bairros do complexo Aeroporto e adjacências) sem transporte coletivo: dois veículos da empresa São José foram incendiados. O fato ocorreu entre os jardins Aeroporto III e Santa Bárbara, quando duas pessoas encapuzadas e armadas invadiram um ônibus que estava parado no ponto recebendo passageiros. Outro veículo da empresa que vinha atrás também foi parado. Os marginais dispararam suas armas para o alto, mandando todo mundo descer e, usando líquido inflamável, colocaram fogo nos dois veículos, que ficaram totalmente destruídos.
Até o final da noite de ontem a Polícia Civil, que investiga o caso, não tinha conhecimento das razões que motivaram o crime: se teria sido represália por causa da prisão de dois traficantes no Aeroporto ou em razão do aumento no preço das tarifas do transporte coletivo em Franca, que começou a vigorar no último dia 10. Tanto em um como em outro caso não se justifica tamanha violência (se é que há como justificá-la, de qualquer forma), que prejudicou milhares de moradores daquela região que dependem dos ônibus para se locomoverem ao longo do dia.
Além da empresa ter interrompido o trânsito de seus coletivos pela Zona Sul (decisão que foi revista por volta de 7h30), deixando muita gente sem transporte, o incêndio ainda atingiu cabos de alta tensão, causando um verdadeiro apagão nos bairros adjacentes por algumas horas. A ação, que vem se repetindo em diversas cidades do País, só causa prejuízos aos que dependem do transporte coletivo urbano. E acaba descaracterizando qualquer tipo de manifestação. Não é desta forma que se protesta.
Deixar trabalhadores sem ter como seguir para ganhar o seu sustento causa mais revolta ainda em quem se sente prejudicado. E os alvos da ação incendiária acabam não sendo capazes de sensibilizar as autoridades em torno de qualquer que seja a pauta de reivindicações. Usar violência deste tipo para protestar é contraproducente. Caso seja uma ação do crime organizado, chama a atenção para a situação dos bairros e acaba por reforçar o policiamento e a repressão aos crimes no setor. No fim, quem acaba prejudicada é a população que depende do transporte coletivo. E ela não merece isso.
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