Na sexta-feira em que as seleções da França e Alemanha se preparavam para entrar em campo e disputar uma das vagas para as semifinais da Copa do Mundo do Brasil, o presidente da Francal, Abdala Jamil Abdala, aproveitava os últimos minutos antes do início da partida para falar sobre a feira deste ano.
A citação ao campeonato mundial de futebol não foi casual. Por conta do torneio, a 46ª edição da Francal, que vai de 15 a 18 de julho, começará com 15 dias de atraso - normalmente ocorre no início do mês - e estará menor, com algo em torno de 10% a menos de expositores.
No tocante às empresas de Franca, a lista inicial de participantes, fornecida pela organização da feira, relaciona 45 indústrias que deverão marcar presença no evento. Nas edições passadas, a média de expositores da cidade era de 70. O pico dos últimos anos foi em 2011, com 85 empresas.
O habitual otimismo do empresário, no entanto, não ecoa entre os fabricantes locais. Problemas antigos também afetam os ânimos daqueles que veem na Francal a oportunidade que precisam - e procuram - para alavancar as vendas, após um primeiro semestre completamente freado.
Entre as queixas, a mais recorrente diz respeito ao valor cobrado pelo metro quadrado nos estandes da feira, realizada no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo. Em média, o preço está em R$ 660 o metro quadrado.
Segundo Abdala, o preço é o que ele paga para usar o espaço do pavilhão. “O Brasil está caro; tudo está caro”, disse ele. “Cobro porque preciso pagar. Não tiro nenhum proveito disso”, emendou. Em sua opinião, a feira se torna cara quando o fabricante não consegue tirar proveito dela. De São Paulo, ele conversou com o Comércio por telefone.
Quantos expositores participarão da Francal 2014?
Vamos ter este ano perto de 800 fabricantes expondo seus produtos, com mais de mil marcas diferentes.
Este número é menor que o registrado em anos anteriores. Para a Francal, está dentro do esperado?
Ele é 10% menor em relação ao que esperávamos. O calendário da Copa do Mundo prejudicou a organização da feira, que começará mais tarde por conta do torneio.
Apenas a realização da Copa do Mundo explica essas desistências?
Muitos (expositores) acharam que a Francal seria muito tardia e, com isso, desistiram de participar. Estas ausências já eram esperadas. São perto de cem fabricantes tradicionais que tomaram uma decisão a meu ver errada. Aqueles que não virão estarão dando espaço para que outros assumam. Os concorrentes estarão no lugar deles.
Com qual expectativa de negócios o senhor trabalha para a edição deste ano da Francal?
Fica difícil apresentar prognósticos. Tivemos um primeiro semestre completamente parado. Foi um ano atípico, com Carnaval em março, feriados longos e Copa do Mundo. Isso fez com que o varejo sofresse. As atenções estão totalmente voltadas para o futebol. Você abre os jornais e é só futebol. Sou ouvinte assíduo de rádio e só ouço notícia sobre Copa. Os negócios se misturaram com futebol, com diversão e a metade do ano foi só para isso. E não atingiu apenas a indústria de calçados. Foi geral. Viajo por vários lugares e conversando com os fabricantes, todos relatam a dificuldade que encontraram nesses seis primeiros meses do ano. A Francal virá para alavancar o setor, pois, ao menos para nós, o ano está começando agora.
No começo do ano o senhor foi bastante questionado sobre as dificuldades que a Copa traria à organização da Francal. Não daria para ter evitado problemas já previsíveis?
Desde que os primeiros rumores sobre a falta de acomodação em hotéis começaram a circular, disse que isso não atingiria em nada a Francal. Sustentei em Franca que São Paulo vive do turismo de negócios e que os torcedores estrangeiros não estariam todos na capital paulista neste período, mas dispersos por outras sedes de jogos. Além disso, a última partida aqui seria no dia 9, muito antes do início da feira.
Havia um receio em relação à acomodação em hotéis e até mesmo aos valores de passagens aéreas. Isso chegou a afetar o planejamento da feira?
Tomamos algumas medidas como a reserva de 1.500 apartamentos em diferentes hotéis, com valores subsidiados pela Francal. A medida foi tomada com muita antecedência e, talvez, nem fosse necessária. Até me arrependo porque taxa de ocupação dos hotéis em São Paulo hoje está em torno dos 40%, mesmo com a Copa, e os preços dos quartos mais baratos que os valores já pagos. Os turistas vieram para São Paulo no dia dos jogos ou na véspera; não ficaram hospedados aqui, além de que o último jogo estava marcado para o dia 9, quase uma semana antes do início da feira. Da mesma maneira, não há encarecimento de passagens aéreas ou falta de voos.
Foram adotadas outras medi para garantir a participação de fabricantes?
Nós realizamos o ‘Franca dá bola pra você’, quando trouxemos 80 fabricantes para São Paulo. Aqui eles visitaram o Estádio do Pacaembu. Fizemos um jantar, visitamos o Museu do Futebol. Conclamamos todos eles para que motivassem seus clientes, seus lojistas para que visitassem a Francal. O retorno foi bastante grande. Além disso, tivemos caravanas de 18 cidades do Brasil especialmente preparadas para a feira, para estimular os fabricantes a trazer seus lojistas para cá.
Há uma lista inicial apontando a participação de 45 indústrias de Franca, mas muitos se queixam dos custos cobrados para garantir seus estandes na Francal. Este valor é realmente alto?
Cobro aquilo que custa. Não estou extrapolando o preço, nem tirando proveito de nada. Pelo contrário, é o custo. Já fui fabricante, já fui expositor. Acredito que você tenha que aproveitar a feira, trazer bons produtos, boas amostras. Não basta adquirir uma área e esperar que as coisas caiam do céu. É preciso investir. A Francal se torna cara apenas para aqueles que não sabem tirar proveito dela.
O senhor mantém uma expectativa bastante animada em relação à Francal. No entanto, a indústria nacional, como um todo, e a calçadista, especificamente, passam por problemas como a queda de produção e estagnação. Não está havendo um otimismo exagerado?
Não estou sendo eufórico, estou confiante. Tento passar credibilidade, mas não para a feira e sim para o lojista. A gente quer lutar e para isso é preciso acreditar. Temos que investir e não deixar a peteca cair. Tenho certeza de que a Francal 2014 será importante para alavancar os negócios
Em Franca, empresas estão dando férias a seus funcionários, e ao menos duas grandes empresas já sinalizaram a possibilidade de demitir empregados. A Francal, sozinha, conseguiria dar início a uma reversão nesse quadro?
Seria muita pretensão dizer que a Francal conseguiria anular o primeiro semestre negativo que tivemos. Seria muito dizer que em quatro dias seria possível recuperar o prejuízo de seis meses seguidos. Em relação às demissões, já tivemos essa situação em outros anos. Em 2014, no entanto, há essa fumaça em função do ano atípico que estamos vivendo. Tenho certeza que a melhoria que virá com o segundo semestre fará as empresas acordarem. A função da Francal, portanto, é a de ser o grande evento do setor. Está na hora de nos concentrarmos no trabalho, em novos negócios. Tenho certeza de que ela será a mudança, um ponto a partir do qual comece a se criar um clima de maior confiança.
Pesquisas recentes apontam que o nível de confiança na indústria brasileira é baixo, resultado do pessimismo instalado no mercado. Em que ponto isso afeta a indústria calçadista em sua opinião?
Há anos o Brasil está passando por um processo de desindustrialização, virando importador. A situação do setor industrial calçadista só não está pior, chegando ao nível zero nas exportações, porque o nosso produto é de qualidade superior. O governo largou a indústria brasileira, geradora de tecnologia e empregos, e isso está se refletindo em um consumo interno menor. O comércio e o setor de serviços são importantes, mas quando uma grande indústria fecha as portas são milhares de pessoas atingidas. O governo não está sensível a isso. E não estou falando sozinho. Isso é notório.
Em sua 46ª edição, seria possível imaginar que a Francal pudesse, um dia, voltar a ser realizada em Franca?
Acho muito difícil isso acontecer. Acredito que Franca não teria condição alguma de receber o público que visita a feira. Falta estrutura física e falta principalmente o imã que São Paulo representa para o mundo dos negócios. Aqui é onde as coisas acontecem. Acredito que Franca, e falo porque sou francano, comportaria bem feiras e evento da indústria de insumos e equipamentos, mas não de produto final.
No que diz respeito ao local de realização da Francal, muitos dizem que o Pavilhão do Anhembi já não comportaria mais evento do porte da feira, muito mais por esgotamento de sua capacidade. A Francal continuaria no mesmo lugar pelos próximos anos?
Não vou sair do Anhembi. O pavilhão passou por mais de 40 dias de reforma em sua estrutura, que está totalmente modernizada. Vamos ter uma surpresa agradável na abertura da Francal 2014.
Para terminarmos, falando em Copa do Mundo e em futebol, a indústria calçadista não poderia ter tirado maior proveito com a exposição de suas marcas durante o evento?
O sapato não tira proveito. Baixaram o preço da carne, da cerveja, estão liquidando aparelhos de TV. Acho que poderiam ter tirado proveito se nós tivéssemos torcedores que fossem consumidores. Mas o Brasil está muito caro e o camarada não vai comprar calçado aqui pagando mais do que pagaria no país dele. Além disso, é um momento focado em festa.
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