O canário nasce já coberto por leve penugem que logo vira protetoras penas. Devidamente abrigado, irradia gorjeios, faz o sol sorrir e as folhas dançarem. Uma vez por ano se fecha em férias. A sua voz adormece, as suas penas começam a cair. Em seu corpo, então, impera aqui e ali a antiga penugem.
Tudo, porém, obedece às leis de um ciclo breve. Logo as penas retornam e, proteção renascida, o canário canta e devolve o sorriso ao rosto do sol e imprime novos movimentos aos galhos e folhas.
A sina do poeta é outra. Ele nasce desprotegido – sem penugem. Chega acompanhado de penas outras – uma infinidade delas entupindo todos os espaços de seu coração.
Ao poeta não foram concedidos estágios de repouso.
Na madrugada, as estrelas silentes testemunham-lhe a dor de arrancar penas do peito. Cada uma delas, transmudada em gota, vai regando os versos que brotam.
Poeta e pássaro – cantores tão iguais, cantos tão distintos!
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
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