‘Entrei em estado de graça que permanece ainda dentro de mim’


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durante a aventura, pausa para descanso
durante a aventura, pausa para descanso
Aos 60 anos, Célia Mamede Tosi tem alcançado grandes conquistas em sua vida. Após concluir o curso de nutrição, sua segunda faculdade, no fim de 2013, abriu mão de festa de formatura e aniversário para realizar um sonho que acalentou por décadas: percorrer o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. “A primeira vez que li a respeito (do Caminho de Santiago) foi em uma revista, em um consultório médico, há 20 anos”, lembra. “Fiquei encantada! Mas Europa, na minha concepção, que vim de uma família simples, parecia algo inatingível.” 
 
O Caminho de Santiago é, na verdade, formado por vários caminhos que se encontram na cidade de Santiago de Compostela, na região da Galícia, Espanha. O escolhido por Célia teve início na França e tem 819 quilômetros. O Caminho é nomeado graças à crença de que ali repousam os restos mortais de Tiago Maior, um dos doze apóstolos de Jesus. Pelo caminho passam peregrinos - que o percorrem a pé, como Célia, de bicicletas ou em lombo de quadrúpedes - e turistas. Para a francana, o percurso durou 33 dias. O caminho reserva belezas como castelos, pontes medievais e templos , mas também muitos perigos. “Pelos caminhos, víamos fotos e nomes de peregrinos que morreram tentando concluir o percurso. Há até mesmo um filme a respeito, The Way, que conta a história de um pai que perdeu o filho lá.”
 
Confira nesta entrevista como foi esta aventura através do olhar da francana que iniciou sua jornada em 17 de abril concluindo-a em 18 de maio.
 
O Caminho de Santiago de Compostela é percorrido, geralmente, por cristãos devido a sua ligação com a história de Tiago, apóstolo de Jesus. O motivo que a levou a cruzar o continente foi religioso?
Não diria religioso, mas espiritual. Cresci em uma família católica mas, devido a episódios da vida, me identifiquei muito com o espiritismo. Esse caminho é um trajeto espiritualista. Senti vontade de fazer essa viagem aos 40 anos, quando minha vida deu uma guinada. Sempre fui gordinha e nessa idade consegui emagrecer. Então me veio uma vontade de realizar sonhos, fiquei motivada. Nessa época vi uma matéria pequena em uma revista, se não me engano, em um consultório médico. Fiquei encantada! Mas Europa, na minha concepção, que vim de uma família simples, parecia algo inatingível. Há dois anos fui alimentando essa vontade com mais intensidade e comecei a pesquisar o local, modos de viajar. Então resolvi abrir mão da minha festa de formatura e aniversário de 60 anos para fazer essa viagem. Fui sozinha. Para não dizer que não conhecia ninguém, fiz contato com dois brasileiros pelo Facebook e nos encontramos na viagem. Foi algo que fiz em busca de autoconhecimento.
 
Como você se preparou para encarar essa jornada: se deparar com uma língua, pessoas e culturas diferentes, sozinha, além de uma caminhada de 819 km?
Quando comecei a ver a possibilidade desta viagem acontecer, fui buscar grupos na internet para conhecer os muitos caminhos que existem. Conversei com muitas pessoas que fizeram a peregrinação, consultei livros e guias e fui me preparando por dois anos. Como tenho 60 anos e a viagem exige esforço físico, intensifiquei as caminhadas que já faço habitualmente e entrei na academia para ganhar massa muscular; principalmente porque na minha idade a gente perde massa com facilidade. Carreguei nas costas uma mochila de oito quilos. Também segui especificações como utilizar por três meses a bota de caminhada, para adaptá-la aos pés. Além disso fui juntando dinheiro.
 
Mesmo tendo explorado o local através dessas pesquisas, alguma coisa a surpreendeu positiva ou negativamente?
Os castelos todos de pedras; as pontes; as igrejas... Um dia entrei em um templo e a emoção veio com tudo. Era lindo! Cada detalhe feito em ouro. Pelo caminho você também se depara com profissionais fazendo a preservação de tudo aquilo. Algo que me incomodou um pouco foi que, em pontos turísticos mais famosos, eram cobradas taxas para visitação. Você tem que pagar para entrar numa igreja e faz com que se perca um pouco o encanto. Acho que para o peregrino, que está em busca de algo espiritual, essa taxa não deveria ser cobrada.
 
Já na caminhada, os peregrinos contam com algum tipo de suporte médico ou guia?
Não. Éramos guiados o tempo todo por placas com setas amarelas. Nesses 819 km passamos, mais ou menos, por 80 cidades e lugarejos. Quando precisávamos de socorro, contávamos uns com os outros ou recorríamos a ajuda nesses pontos de paradas. Fora isso também recebemos orientações em uma associação. Quando o Caminho dos Pirineus, que é estreito e íngreme, está coberto de neve, não nos deixam subir. Pelos caminhos, víamos fotos e nomes de peregrinos que morreram tentando concluir o percurso. Há até mesmo um filme a respeito, The Way, que conta a história de um pai que perdeu o filho lá. 
 
Em algum momento você sentiu vontade de desistir da jornada?
Não. Mas houve momentos de dificuldade. Mesmo tendo utilizado a bota por três meses antes da viagem, ela acabou ferindo o meu pé. A partir deste dia tive que andar devagar e com dores. Depois disso tive que caminhar com uma papete fina e, como o caminho é cheio de pedras, formaram-se bolhas nos meus pés e à noite eu chorei de dor. Contei com a ajuda de uma francesa. Ela me perguntou: Do you need help? (você precisa de ajuda?) Eu, que não falo inglês, respondi: I need ‘muitcho, muitcho, muitcho’ (risos). Ela pegou seu kit de socorros e cuidou de mim. A solidariedade entre pessoas que mal conseguiam se comunicar foi algo que me impressionou. Tenho alguns relatos em meu diário da viagem.
 
Que outras histórias você trouxe na bagagem?
Quem optava pela economia, como eu, dormia em albergues municipais, que são muito organizados e limpos. Num deles, administrado por um convento, havia uma freira que fazia com muita alegria curativo em todos os peregrinos. Certa noite, em Zubiri, eu e um grupo que caminhava mais devagar chegamos mais tarde e não encontramos vagas no albergue. Em uma igreja, uma hospedeira ofereceu um galpão para passarmos a noite. Ali já havia vários peregrinos e nenhum colchão. Fomos até supermercados para pedir caixas de papelão para evitar o contato com o chão. Em meu diário escrevi: ‘para a valorização do que temos: dormir no chão, em cima de papelão e dentro de saco de dormir’. Passei muito frio naquela noite e isso me fez pensar que eu tenho tudo. Sentir a sensação do ‘não ter’ faz com que mudemos nossos valores. A palavra que mais disse durante a viagem foi ‘obrigada’.
 
Você teve algum problema para se adaptar à alimentação espanhola?
Na verdade não. Não tem arroz, mas eles servem muita batata e frango. Às vezes optava por uma salada. Gostei muito do bocadilho. É um pão, parecido com a nossa baguete, recheado com presunto cru e omelete de queijo.
 
Dizem que quem completa a caminhada alcança plena indulgência. Como se sentiu ao concluí-la? 
Entrei em estado de graça que permanece ainda dentro de mim. No caminho refleti sobre a minha vida e ponderei sobre onde poderia mudar e o que em mim eu deveria aceitar. Chorei copiosamente nos 15 primeiros dias de viagem. A impressão é que eu derramei as lágrimas que segurei durante todos os momentos em que tive de ser forte na minha vida.
 
Você deixou algum pedido ou pediu alguma graça pelo caminho?
Sim, claro, na Cruz de Ferro. Deixei uma pedra, da minha casa, energizada ali. O pensamento foi: estou colocando aqui tudo o que é a minha vida e é isso o que vou te deixar. Também deixei bilhetinhos que minha família mandou com pedidos de graças. 
 
Esse é um caminho que faria novamente ou a experiência que você tinha que ter já foi vivida?
Eu saí de lá falando que não, não faria de novo. Hoje eu tenho uma análise do que eu mudaria no caminho, como por exemplo a dependência das pessoas que conheci pela internet. Acredito que se aos 70 anos eu tiver vitalidade e oportunidade, acabo voltando.

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