Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ministros e líderes petistas unificaram o discurso: os pessimistas foram derrotados pelo sucesso da Copa. Ou seja, todos aqueles que se posicionaram contra a utilização de dinheiro público nas arenas, os atrasos nas obras e o superfaturamento da maioria dos estádios, foram criticados. Entretanto, a maioria dos órgãos de comunicação continua sinalizando para o fato de que o dinheiro do contribuinte foi irresponsavelmente enterrado em obras desnecessárias (que destino terão o estádio Mané Garrincha, em Brasília, e a Arena Manaus, com o fim da Copa?).
O sucesso da Copa passou a ser discurso reiterado da presidente e seus assessores contra os “pessimistas”. Aliás, esta será a linha da campanha eleitoral deste ano: “nós” (o PT) contra “eles” (“os pessimistas”, a “elite branca paulista” e “os que querem ver a desgraça do País”, de acordo com Dilma, Lula e auxiliares). A Copa do Mundo é um sucesso, é verdade. Tentar culpá-la por todos os problemas brasileiros é um completo erro. Mas não se pode esquecer que os atrasos nas obras, muitas delas sendo levadas a toque de caixa, foram diretamente responsáveis pelas mortes de operários no Itaquerão e na Arena Manaus, além da queda da passarela anteontem em Belo Horizonte numa das chamadas obras de mobilidade urbana.
Caso a Copa do Mundo no Brasil seguisse o roteiro apresentado pelo então presidente Lula, em outubro de 2007, não haveria razões para reparos. Ali, quando a Fifa ratificou nosso País para sede do Mundial, a garantia era de que a iniciativa privada seria responsável pela reforma ou construção de arenas. De lá para cá, viu-se que não era nada disso. E o que é pior: alguns estádios, erguidos onde o futebol ainda não arrasta multidões, se tornarão verdadeiros “elefantes brancos”, como o Mané Garrincha, em Brasília — totalmente financiado pelo governo do DF. Dificilmente ele receberá público que justifique a gastança. O Campeonato Brasiliense do ano passado teve uma média de público pouco superior a 1.300 pagantes.
Desta forma, embora houvesse radicais que bradassem o fracasso da Copa, quem apontou o erro de sediar o mundial não pode ser chamado de pessimista. Assim como toda a imprensa, o Comércio também apontou para o escoadouro de dinheiro público que o evento suscitava. Afinal, os milhões despendidos poderiam muito bem servir à saúde pública, que enfrenta problemas de financiamento e administração. Ou então no ensino, que apresenta números positivos pífios em relação a outros países.
O que se deve ressaltar, a esta altura, é que se a Copa do Mundo no Brasil está sendo um sucesso, apesar de tudo, tal se deve aos brasileiros que acompanham a seleção, contribuem para estádios lotados e fazem uma bonita festa a cada jogo, mesmo que não seja do time de Felipão. Mas a vida brasileira continua e ainda enfrentamos o caos da saúde, o descompasso da educação e infraestrutura e saneamento básico deficientes. Usar a Copa do Mundo como trunfo político, como está se tentando, é tripudiar sobre todos os problemas que exigem uma solução.
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