Não deveriam ser chamados ‘profetas do caos’, como já aconteceu recentemente, os especialistas em economia que vêm fazendo seus alertas sobre os rumos da política econômica no Brasil. Cada vez mais se torna claro que eles têm razão. O setor produtivo nacional vem sofrendo com o descontrole da equipe da presidente Dilma Rousseff, que ainda não conseguiu encontrar um equilíbrio entre baixa inflação e alto crescimento. Décadas atrás, houve presidente que prometeu acabar com a alta dos preços e serviços com um tiro só. Hoje, o governo federal patrocina planos em sequência (já são mais de 30, apenas com Dilma Rousseff). Busca-se dizimar o inimigo (a inflação) com bala de borracha, quando só uma bala de canhão é capaz de neutralizá-lo.
Hoje a situação negativa começa a se delinear às portas francanas, sem que tenhamos condições de resolver a questão que vem causando demissões em série na indústria calçadista. De acordo com manchete do Comércio, edição de ontem, o Sindicato dos Sapateiros de Franca está homologando, em média, 30 rescisões do contrato de trabalho por dia. Trata-se de um número alto, que supera médias mensais anteriores, conforme conta o presidente da entidade, Fábio Cândido da Silva. Estas demissões — que atingem fábricas grandes, médias e pequenas — chegam também aos chamados prestadores de serviço (bancas de pesponto), que se veem sem trabalho. Algumas já fecharam as portas.
Trata-se de um sinal preocupante, pois a indústria calçadista é responsável pela movimentação de pelo menos 60% da economia francana. E o que é pior: a persistirem, as demissões vão causar um efeito cascata que certamente chegará aos setores de comércio e serviços, o que pode tornar a situação ainda mais grave. Culpar a Copa do Mundo pelo que está acontecendo à nossa indústria seria leviano. O fato é que ela vem sofrendo com a competição — tanto no mercado interno quanto externo —, provocada principalmente pelo câmbio, mantido artificialmente num patamar que torna o momento difícil para o setor produtivo brasileiro.
Há muito se percebe que a política de desonerações se esgotou. Redução das alíquotas de impostos, federais ou estaduais, já não é mais eficiente, pois o desemprego (ou o temor dele) está produzindo cautela naqueles que ainda podem consumir. Os carros encalhados nos pátios das montadoras e os televisores amontoadas nas fábricas da Zona Franca de Manaus são exemplos nítidos da situação que vivemos agora. Sem consumidor, a produção se reduz e as demissões são inevitáveis.
A questão maior, agora, não se resume apenas ao crescimento econômico. Trata-se também da sobrevivência de setores que estão vivendo aos trancos e barrancos e merecem uma atenção maior da área econômica do governo. A indústria francana, em razão da manutenção do câmbio em um patamar artificialmente baixo para segurar os índices inflacionários, não consegue competir em preços lá fora, ao contrário do que ocorria anteriormente. Hoje, ela pede socorro. Se ele não vier, a situação pode ficar mais crítica e causar um impacto ainda maior na economia da cidade.
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