Guta e a barata de salto alto


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Gotículas de cuidado, frações de atos me falam. Quem é este? Que sou? Quem é ela? Os olhos dos outros, quietos, aprisionam.
 
Pouco posso ver de alma daqui.
 
Quando abrem a boca para rir ou cerram os dentes num bruxismo arrepiante, escapa um pouco mais de alma. Os braços estão dançantes? Estão convalescentes? Estão imóveis? Me chamam, côncavos?
 
Estamos todos em uma dança tênue ao som de música bem instrumentalizada.
 
A vida é uma dança efêmera.
 
Quando menos pensamos algo nos toma de assalto completamente! Temo e invejo de certa forma as pessoas muito compenetradas.
 
Pensava assim hoje de manhã quando saía do café com leite.
 
Parei na frente da Porta da Esperança pensando ainda nas contas, no curto tempo, nas pessoas com as quais estou em dívida de uma visita... Foi quando vi uma barata correr, atravessando minha frente! Porque jogaram produto lá e elas estavam alvoraçadas, tinha cada uma, gigantesca! Ainda bem que nem fui lá ver! Credo! Tenho pavooor de baratas! Não gosto nem de pensar! Eca, eca, Eca!
 
Lá em casa outro dia me apareceu uma; dessas cascudas de asas, sabe? Então, dessas eu não mato! Só mato das que não voam e ainda assim quando não tenho outra solução! Pode chamar o corpo de bombeiros para elas e a Prontomed para mim!
 
Se eu tiver com o veneno na mão ainda vai, mas sempre aparecem quando estou desprevenida.
 
Naquele dia em casa eu estava sozinha, se eu gritasse ninguém ouviria, tive que  gemer daquele nojo todo sozinha! Era uma bitela, medonha mesmo, dessas que andam de salto alto, sabe?! Nossa senhora!
 
Já pensava que eu ia acabar voltando para o hospital, podia ir para a UTI direto! Infarto na certa! Quando tirei o chinelo e apontei para ela. Aquela coisa ria de mim, enquanto eu sentia vontade de chorar de vergonha, de nojo, de raiva! Mentalizei com força como se fosse possível a força do meu pensamento manter ela parada naquele canto; tamanha foi a força do pensamento que fiz que acabei por paralisar nós duas.
 
Fiquei mais de quarenta minutos criando coragem de acertar o chinelo nela. Ela queria sair correndo! Pensamento firme nela! E minhas costas... Ai! Como doíam, minhas costas! Queimavam, ardiam mesmo! Eu rezava por um milagre, que ela morresse na primeira, porque não teria mais tempo nem coragem para a segunda chinelada. Eram sete da manhã, eu já estava atrasada para o trabalho e tendo que aguentar curvada ali olhando aquela nojeira asquerosa! Creio em Deus Pai!
 
Por fim eu tive que dar jeito! Poft! Ufa!
 
Ela ficou mais ou menos morta, já dava para passar por perto dela, não correria mais atrás de mim!
 
Varri quietinha depois aquela coisa, nem contei para minhas meninas, se não teria que matar outras pela frente! Próxima vez elas deverão chamar os namorados, porque eles têm que servir para alguma coisa, né!?
 
 
Débora  Menegoti, universitária

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