Perdidas em Viña Del Mar, depois de passarmos por Valparaíso, onde nos deliciamos com “La Sebastiana”, uma das casas de Pablo Neruda, construída em formato de navio, acabamos por encontrar um cicerone que nos acompanhou, a mim e minha amiga, por alguns pontos turísticos. Foi um daqueles encontros que de tão natural a gente se esquece de como se deu.
Afora a preferência exacerbada por loiras, que ficou clara na atitude do rapaz, ele era simplesmente um amor. De uns trinta e cinco anos, não muito alto, um pouco acima do peso, bochechas avermelhadas e cabelos muito pretos e lisos, deixava escorrer simpatia e uma certa benevolência pelos gestos, fala, olhar.
Não me lembro de sua profissão, sei que usava terno e gravata e disse estar pronto para entrar no trabalho no período da tarde. Por todos os lugares aonde íamos, ele demonstrava conhecimento com as pessoas e nos apresentava como suas amigas do Brasil.
Mal passamos pela orla marítima de areias escuras e águas encardidas, entramos por uma rua que nos levaria a um museu. No caminho, a curiosidade fustigou-me, e não pude deixar de perguntar-lhe sobre algo: os Cafés espalhados aqui ou acolá, com portas semicerradas, deixando entrever o interior à meia-luz azulada.
Ante a interpelação, o bom moço direcionou-me um olhar interrogativo entremeado por meio sorriso e, puxando minha amiga para a conversa, explicou-nos sobre tais estabelecimentos. Ao final, superestimou seu valor, ao nos assegurar que naqueles Cafés estaríamos seguras caso estivéssemos acompanhadas por um homem. Assim, bem guardadas, concordamos em tomar um cafezinho caracteristicamente chileno.
Após umas três quadras, lá estava mais um “Café Tal”. Aproximamos. Ele empurrou a porta devagar. E a cena seguinte meus olhos a refletiu em espanto e curiosidade.
Era um ambiente pequeno, com escuro mobiliário pobre, antigo. Ao balcão, sentados em bancos individuais altos, havia alguns homens. Uma tímida escada de madeira dava acesso ao piso superior, de onde vinha um som de música arrastada. As garçonetes, do lado interno do balcão, estavam vestidas de biquíni e uma espécie de saída de banho curta e semi- transparente. Bastante maquiadas, conversavam baixo com os fregueses. De vez em quando elas e seus interlocutores lançavam olhares curiosos em nossa direção. A um dado momento, uma delas, de pernas gordas e quadris largos, subiu pela escada, seguida de um homem mal vestido e fora de forma.
Nosso cicerone nos deixou à vontade após informar à atendente, uma das mais jovens, que éramos apenas turistas. Pediu três cafezinhos e, enquanto sorvíamos o líquido, puxei conversa com a moça. Ela me constrangeu ao acolher minha atenção como quem recebe um favor; quis saber se havia Cafés assim em meu país. No meio do diálogo, observei-a melhor e vi que não passava de uns vinte anos. Angustiada, procurei em sua face algum frescor próprio de sua idade, uma chamazinha, ao menos, de genuína alegria em seus olhos! À guisa de disfarçar certo mal-estar que me invadia, dei a ela ainda mais atenção, e dentre temas banais e riso fácil, disse-me que era mãe de uma menina. A exclamação “que legal!” saiu-me tão dolorida que ela certamente percebeu o desconforto. Espero que tenha atribuído isso a algo como peculiar traço cultural.
A conversa ia morrendo, quando minha companheira de viagem manifestou o desejo de tirar foto com a garota, que assentiu prontamente. Vaidosa, fez pose bacana, assim meio de perfil, abriu o sorriso - indisfarçavelmente amargo-, exibiu as pernas de formato realmente bonito, manchadas de roxo, e eu não pude evitar que a imagem JPEG revelasse parte da barriga com marcas de recente gravidez malcuidada.
Após agradecimentos e tais, partimos! E nada foi capaz de livrar-me do aperto no peito que se arrastou comigo pelas ruas da cidade; lamentava algo que eu não definia bem. Talvez eu desejasse era ser o Grande “Fhotoshopper”, não só para eliminar ruídos, traços, sombras desagradáveis, mas para transportar aquela jovem para destino melhor.
Inerita Alcântara, professora
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