Durante a Copa, somos bombardeados pela mídia falando de convocados e esquema de jogo. Milhares de páginas e horas discutem o plano do treinador, as estratégias e táticas, as ameaças e oportunidades e os competidores. Afinal, tem coisa mais importante que ganhar a Copa? Tem. Na campanha presidencial, assistimos aos discursos, propaganda televisiva e a lenga-lenga de sempre dos candidatos de assumir o Esporte Clube Brasil S.A. E o que discutimos? Qual marqueteiro levaria vantagem, qual campanha televisiva é a mais criativa, o falatório deles, a mulher de um deles. Discutimos os acessórios. De programas ou propostas para fazer crescer o país, nada. Discutíssemos a sucessão como discutimos a Seleção, com certeza teríamos mais inteligência, valor e consequência. Mas...
Discussão vazia cria analfabetos políticos, gente que se orgulha de dizer que não gosta de política, que não vai votar “nisso que está aí”, votar em branco ou anular. Tenho notado no Brasil uma profunda ignorância sobre o que vem a ser política. Como faz com todos os problemas complexos, inclusive com o esquema tático da Seleção, o brasileiro simplifica. Reduz política a troca de favores, a conchavos, a coisa de gente desonesta disposta a tirar vantagens pessoais... Vira piada. Tenho uma má notícia. Nosso destino está nas mãos de milhões de semi-analfabetos políticos! Então, que os meios de comunicação que discutem o acessório, iniciem processo de alfabetização política! Que analise os planos dos candidatos de forma compreensível ao povo, explique o que há de bom e o que é lenga-lenga. Da mesma forma como fazemos com a Seleção. Quando a mídia de massa começar a tratar seus leitores e espectadores como algo mais que analfabetos políticos, começaremos a mudar este País. E talvez ganhemos algo mais importante que a Copa. (Publiquei este texto no meu livro Brasileiros Pocotó há 12 anos, durante a Copa de 2002.)
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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