Madrugar para conseguir uma consulta médica. Essa é a rotina dos usuários da Rede Pública Municipal de Saúde em Franca. A fila começa a se formar por volta das 4 horas da manhã. E o agendamento se inicia só dali a três horas. Mas todo esse esforço, de cair da cama cedo e enfrentar o frio da madrugada, não é o maior empecilho para os pacientes. O grande problema é chegar à UBS (Unidade Básica de Saúde) antes mesmo de o sol nascer e não ter a garantia de que o atendimento será agendado.
O agendamento de consultas é feito por cotas. Na UBS do Aeroporto I, por exemplo, são marcados por dia 40 atendimentos com os médicos da unidade. O método consiste em distribuir senhas aos 40 primeiros a chegar. Apenas quem conseguir um número está apto a marcar, para outra data, sua consulta.
Por volta das 6 horas da última sexta-feira, o Comércio acompanhou a rotina na UBS do Aeroporto I. Mas esse era um dia atípico, por ser ponto facultativo - pós-feriado de Corpus Christi. Não havia filas na unidade, apenas alguns desavisados apareceram por lá e já eram logo dispensados na recepção.
O aposentado Amador Alves da Silva, de 91 anos, era um desses pacientes. Ele foi até a UBS marcar uma consulta para conseguir uma receita de medicamentos. “É a terceira vez que venho aqui e não consigo agendar (uma consulta). Tomo remédio controlado para o coração, para a próstata e calmante, mas minha receita está vencida”, disse ele, que, ao reclamar da situação com uma profissional do local, ouviu como resposta que deveria ter procurado pela unidade antes que os remédios chegassem ao fim. “Mas eu vim (à UBS) três vezes e não consegui marcar consulta”, respondeu. A profissional pediu então para que ele voltasse com a receita antiga que parte dos remédios seria entregue até que o agendamento fosse feito. A pé, Amador seguiu de volta para casa.
Assim como o aposentado, muitos outros usuários têm tentado por dias ser um dos 40 primeiros “premiados”. A técnica em farmácia Francisca Fonseca, por exemplo, corre contra o tempo. Ela vem tentando, em mais de uma UBS do Complexo Aeroporto, agendar consulta para seu irmão, usuário de medicamentos neurológicos.
De acordo com ela, as explicações dadas nas unidades vão desde a falta de médico à data exata para agendamento. “Está difícil. Meu irmão precisa de remédios, porque, sem eles, ele entra em crise, tem convulsão e eu não sei o que fazer. Além disso, são caros e preciso da receita para conseguir na farmácia de alto custo.”
“Estou muito revoltada!”, indignou-se a dona de casa Rosa Costa. “Na segunda-feira havia uma fila enorme e distribuíram só 40 senhas. Disseram que, na sexta-feira, o médico ia atender. Levantei de madrugada, deixei meus filhos com a vizinha, vim para cá e me mandaram embora. Isso é um absurdo. É a terceira vez que venho aqui.”
Segunda ela, a falta de plantonista também tem sido um problema no local. “Ontem (quinta-feira, 19, feriado) à noite, trouxe a minha menina, que estava com cólica de rins, e não tinha médico para atender. Estavam aqui quatro enfermeiras e um guarda.” Por telefone, um funcionário do local informou que há plantonistas “quase todos os dias, mas é bom ligar para confirmar”.
A reportagem tentou contato com a secretária de Saúde, Rosane Moscardini, em seu telefone pessoal e via assessoria de imprensa da Prefeitura. A ela foram enviados questionamentos sobre o motivo de limitar o agendamento de consultas; se este seria o melhor modelo de atendimento; se há estudo para que a situação mude e em quantas UBSs ele é aplicado. Mas até o fechamento desta edição, não obteve respostas.
O problema se repete
Em março, o Comércio publicou as reivindicações dos moradores da região do Parque do Horto. Na ocasião, o principal problema apontado pela população era que os agendamentos de consultas médicas na UBS do bairro só podiam ser realizados em um único dia da semana. “Antes, a gente vinha e marcava a consulta em qualquer dia. Agora, eles mudaram e colocaram dia para a gente marcar. Virou uma bagunça e complicou a nossa vida”, disse, à época, a moradora do City Petrópolis Ana Cláudia de Melo.
O Comércio conferiu que mesmo dentro do dia e horário indicados para o agendamento, um cartaz avisava que não havia mais vagas para o atendimento. Questionados, os funcionários disseram apenas que as vagas tinham acabado e que era preciso aguardar uma semana e chegar cedo para tentar o agendamento.
Em uma rede social, o presidente da Associação de Moradores do Parque Vicente Leporace postou uma foto em que a UBS do bairro aparece repleta de usuários em fila. De acordo com ele, a cena mostrava a “falta de respeito” com os moradores da região. “Agendamento com médico clínico geral somente às quartas-feiras. Dependendo do médico, o atendimento é somente dia 27 de julho de 2014.”
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