Manipulação numérica


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Virou rotina. A qualquer notícia negativa que evolva aspectos da administração pública, os nossos dirigentes sacam do bolso do colete números e estatísticas para tentar provar o contrário. O estratagema tornou-se comum e, nos últimos tempos, não consegue mais enganar. Números frios, estatísticas direcionadas e dados defasados e/ou mentirosos aparecem a qualquer momento, quando se tenta desmentir o que a realidade cotidiana mostra claramente.
 
Numa época em que profissionais de marketing e palpiteiros nem tanto estão ditando os rumos das administrações em seus três níveis (federal, estaduais e municipais), utilizar números, muitos deles manipulados, pode causar um efeito contrário ao pretendido. Novamente, a presidente Dilma Rousseff (PT) cai na armadilha. Começa a insistir em que os gastos da Copa do Mundo no País não chegam nem perto do que o governo gasta em educação e saúde. Repete uma ladainha que já não vem dando certo nos últimos tempos, o que levou a uma manifestação — grosseira e desnecessária — dos milhares de brasileiros que assistiam à estreia da seleção brasileira contra o time da Croácia, na Arena Corinthians, em São Paulo, na última sexta-feira, 13.
 
Dilma tem adotado como tema de seus discursos recentes a celebração do Mundial no Brasil e utiliza o torneio para atacar os adversários, classificando aqueles que criticam a desorganização do governo como ‘pessimistas’. Ela vai além ao ignorar as obras que não ficaram prontas e, acima de tudo, ao atropelar a matemática. Dilma garante que os investimentos em educação e saúde superam em 212 vezes os gastos para construção de estádios, distorcendo dados para usar os números a seu favor. No final das contas, é desmentida imediatamente na internet.
 
Dados da ONG Contas Abertas mostram que a presidente usa números irreais ao fazer a comparação. Isso porque o que Dilma chama de ‘investimento’ nada mais é do que o valor corrente dos gastos com os setores de saúde e educação, incluindo pagamento de pessoal, além de despesas com água, luz e vigilância. Investimentos são, contudo, os dispêndios com obras e compra de equipamentos. Ao contabilizar a despesa global, ela afirma que o País investiu, entre 2010 e 2013, RS 1,7 trilhão em saúde e educação, muito mais do que os R$ 8 bilhões destinados aos estádios. 
 
A página Contas Abertas na internet, usando dados do Ministério do Planejamento, de 2010 a 2014, aponta que R$ 719,6 bilhões foram gastos nos Ministérios da Saúde e Educação, considerados os valores correntes de cada ano. Os investimentos representam apenas R$ 47,5 bilhões desse montante. É uma tentativa da presidente-candidata de inflar os números de dois setores bastante sensíveis de sua administração, que convivem com hospitais sucateados e escolas sem a mínima estrutura. Hoje não se consegue mais enganar, como se fazia anos atrás. Por isso, é bom que Dilma Rousseff repense a sua estratégia, pois se insistir poderá ser ainda mais prejudicada a ponto de não poder aparecer em público sob risco de ser novamente vaiada.
 
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