“Voar, voar, subir, subir, ir por onde for. Descer até o céu cair ou mudar de cor”. A música Sonho de Ícaro, do cantor Byafra, ajuda a traduzir um pouco a vida de Nice de Toledo Santos, hoje com 93 anos, e uma das primeiras mulheres a se formar como pilota de aviões no Brasil.
Filha de um militar, ela morou em dezenas de cidades no Brasil por causa da profissão do pai e foi em uma dessas passagens pelos municípios brasileiros que teve apoio dele para estudar aviação. Inovador para o seu tempo, Braz da Silva Santos teve cinco filhas, entendia que “as mulheres não deveriam ser tratadas de forma diferente dos homens” e passou para elas um pouco do seu espírito aventureiro.
Aos 20 anos, Nice ganhou do pai uma hora de voo no então recém-inaugurado aeroclube de São João da Boa Vista (SP) para ver se gostava. Se apaixonou. Mas há mais de 70 anos, ainda na década de 40, as mulheres eram subestimadas. Tinham poucas chances, de acordo com dona Nice, de seguir carreira e ela passou a vida voando por hobby. “Poderia ter sido aeromoça, porque essa era a opção para as mulheres que queriam trabalhar com aviação na época, mas não quis. Nada contra a profissão, mas não queria servir ninguém”, disse.
Mulher de jeito simples, de risada fácil e cheia de vida, dona Nice mora há 30 anos em Araxá, Minas Gerais, mas passa uma temporada em Franca, onde tem parentes (ela é tia do ex vice-prefeito da cidade Cassiano Pimentel). Ela recebeu a reportagem do Comércio para relembrar os áureos tempos em que vivia pelo ar. Entre os aviões que Nice pilotava estavam o Piper, de dois lugares, e o Stinson, para quatro passageiros.
Em São João, onde estudou, eram apenas duas mulheres em um curso com 48 homens para se tornarem pilotos. Após sete horas pilotando, dona Nice fez seu primeiro solo. Com 12 horas de prática, tirou seu brevê (autorização para pilotar). Ela contou que voar sempre foi uma brincadeira para ela, mas que, apesar disso, conviveu com grandes nomes da aviação, como Ada Rogato e Anésia Pinheiro Machado, pilotas pioneiras que fizeram grandes voos nos anos 40, internacionais, inclusive. “Era diversão para mim. Alugava aeronaves e ficava sobrevoando as cidades onde morava. São João, depois Rio Preto. Não haviam leis que limitavam nossa altura, então dava rasantes para brincar com meus amigos e familiares”, conta, gargalhando.
Apuros
Dona Nice já passou alguns apertos voando. No dia em que tirou o brevê seu instrutor foi desejar-lhe boa sorte na cabine no Piper e esqueceu, ao sair, a porta do avião aberta. Nice só percebeu isso quando o avião havia decolado e evitou um acidente que poderia ter sido grave. Com cuidado e com a aeronave reta, ela puxou a porta. “Lembrei que em aula, o instrutor havia dito que, caso a porta abrisse, não poderíamos virar o avião, pois a corrente de ar viraria o Piper.” O voo foi um sucesso e ela conseguiu tirar o brevê. Em outra ocasião, antes de ter autorização para voar, enquanto fazia seu segundo voo solo no aeroclube, se esqueceu qual era o procedimento de pouso. Precisou de calma e habilidade para colocar o avião no chão com segurança.
Nice é viúva, mãe de uma filha, avó de cinco netos e bisa de três bisnetos. “Nunca fui uma mulher muito tradicional. Era à frente do meu tempo e moderna aos olhos de muitos. Não aceitava ser censurada”, disse. Apesar disso, acabou deixando de lado a aviação para ser professora e deu aula por 15 anos.
Seu espírito livre fez com que, mesmo em terra firme, continuasse seguindo caminhos diferentes das amigas da mesma época. Nice foi funcionária do ramo de cosméticos - Avon - e abriu mercado para revenda dos produtos no norte do Paraná. Dirigia, sozinha, 2,5 mil quilômetros por semana para divulgar a marca. Hoje, aos 93 anos, experimenta uma sensação nova, a do medo. “Nunca senti medo de nada. Voava e viajava de carro sozinha quando era preciso, mas hoje tenho medo de bandido. Sinal dos novos tempos”, afirma.
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