A família, o despertar da paixão pelo basquete, os amigos, o reconhecimento de sua importância para o esporte, o prestígio dos fãs. Tudo o que há de mais importante na vida do atleta Hélio Rubens Garcia Filho, o armador Helinho, está diretamente ligado a Franca. Aos 39 anos e depois de cravar seu nome em importantes clubes - além do Franca Basquete, em 20 anos de carreira passou pelo Vasco (RJ) e pelo Uberlândia (MG), seu mais recente time - o “bom filho” torna à casa para cumprir o que afirma ser a sua despedida como jogador profissional do esporte coqueluche da cidade.
A novidade foi anunciada na quarta-feira, 11, pelo Franca Basquete. Além dos pivôs Léo e André Coimbra e do armador Carlos de Cobos, o time terá um de seus maiores ídolos, Helinho, entre os reforços para a temporada 2014/2015. Em uma negociação que durou, segundo o jogador, entre 8 e 10 dias, acertou sua volta assinando vínculo de um ano.
Filho do ex-jogador e técnico Hélio Rubens Garcia e sobrinho dos ex-atletas Totô e Fransérgio Garcia, o jogador respira basquete. Forjado no quintal de casa com a ajuda, inclusive, de tabelas com aros menores que o padrão - sim, o pai dele fez isso sem que ele soubesse -, o jogador teve amparo e incentivo suficientes para catalisar uma carreira de sucesso que em breve pretende encerrar exatamente onde iniciou e acumulou conquistas: em Franca.
E foi em “sua” casa que ele recebeu a equipe do Comércio para um bate-papo, na quadra do Poliesportivo, na última sexta-feira.
Você sabe precisar quando sentiu despertar a paixão pelo basquete?
Comecei o meu contato entrando na quadra com o meu pai, sempre o acompanhando nas viagens quando tinha por volta de 9 anos, mas sempre pratiquei vários esportes. Joguei futebol, disputei campeonatos de natação nas escolinhas da Prefeitura de Franca, tive aulas de tênis. Mas acho que a partir de quando eu me federei (foi inscrito na Federação como atleta de um clube), dos 14 para os 15 anos, foi que vi que a minha vontade era a de jogar basquete. Parecia um mascote perto dos jogadores, era bem menor, apesar de ter a mesma idade. Aí fui treinando, sempre gostei de treinar sozinho, porque o meu pai sempre falou sobre a importância disso, e não tive pressão (da família). Nos jogos, quando era da categoria de base, na maioria das vezes, ele nem ia aos jogos para não criar um clima de pressão. Gradativamente fui criando esse gosto, esse amor pelo basquete.
Até que ponto você passou a se dedicar ao esporte e, consequentemente, se profissionalizou por influência, ainda que indireta, de seu pai?
Sempre tive uma influência forte por causa do meu pai e dos meus tios (os ex-jogadores Totô e Fransérgio Garcia), por eles terem jogado aqui. Mas, a cidade em si é uma cidade que curte o basquete. Sempre vinha torcer. Eu me lembro de estar sentado nas arquibancadas gritando, vibrando, sempre curti o esporte. Sempre tive esse amor que acho que a cidade vive. Esse amor com o basquete é gostoso. A influência da família foi por eles terem jogado, por meu pai ter virado técnico e por sempre ter acompanhando tudo de perto.
Você consegue descrever sua primeira grande emoção como jogador profissional?
Lembro-me bem de um campeonato sulamericano aqui em Franca em que todo mundo estourou com faltas e eu, que era banco, tive que entrar. Fiz uma bola que levou o jogo para a prorrogação. Pensei, ‘meu Deus!’. Foi uma coisa que me marcou muito, senti uma emoção, um frio na barriga, tinha 19 anos. Foi aí que tomei consciência que poderia vir a ter uma importância neste esporte. Isso aconteceu aqui no Pedrocão, em uma partida contra o time argentino Independiente.
Além de estender os treinos e treinar sozinho, quais conselhos de seu pai, Hélio Rubens, você nunca esquece, nunca deixa de praticar?
Tem vários. Além desse trabalho fora de hora, de treinar sozinho, ele sempre exigiu o respeito tanto com os companheiros, quanto com os técnicos. Também sempre falou para tratar a todos com educação, priorizar a disciplina e, o mais importante de tudo: ter comprometimento. Esse último item envolve todos os outros que citei. Se você está comprometido, você traz as pessoas contigo, mostra para os outros, dá exemplo. Ele sempre falou que o comprometimento é o que marca, o que há de mais importante. Ele sempre cobrou tudo isso não só de mim, mas de todos os jogadores. Ganhando ou perdendo, meu pai sempre se importou muito com a forma com que a gente estava jogando. Não é só ganhar. É ganhar jogando corretamente, ganhar fazendo o certo. Foram muitas as vezes que nós ganhamos, mas levamos dura no vestiário. O contrário também aconteceu demais. Isso me marcou muito.
Seu pai diminuiu o tamanho do aro da cesta em que você treinava sem que você soubesse. O que mais ele fez para ‘dificultar’ os seus treinos em uma tentativa de aprimorar as suas qualidades?
Isso ele fez mesmo e foi a maior peripécia que eu me lembro. Treinei nessa cesta mais ou menos dos 14 aos 18 anos, era em nossa casa. E também teve muitos momentos em que eu, jogando sozinho, queria arremessar e não tinha ninguém. Aí ele vinha pegar a bola para mim, sempre do meu lado. Sempre também assistimos a jogos juntos, e ele sempre falando coisas importantes que estão ocorrendo naquele jogo.
O Franca Basquete acaba de anunciar a sua recontratação. O que motivou a sua volta para o clube?
O fator foi justamente a motivação que sinto aqui. É um momento importante da minha carreira, já que deverá ser o meu último ano jogando profissionalmente, em alto nível, além de estar ao lado da família e dos amigos nesse momento que considero importante para mim. Só quero ajudar, não tenho a vaidade de querer mostrar nada além do que posso. Só tenho a vontade de querer ajudar o grupo com as características que tive em minha carreira, de força de vontade, disciplina, vibração. Tudo o que aconteceu em minha vida em termos de ganhar títulos sempre foi consequência de um trabalho, do que foi feito antes. O título não vem no dia, há muita coisa antes. Quero dar a minha parcela de contribuição para ajudar a equipe a fazer o melhor.
Questões financeiras tiveram alguma influência nessa decisão de voltar para Franca?
O fator financeiro ficou totalmente em segundo plano. Deixei muito claro quando comecei a conversar com a diretoria que iria acertar aqui ou em Uberlândia, pois no momento não queria sair para nenhum outro lugar. Realmente queria jogar em Franca, onde a torcida me conhece; ou onde eu estava, Uberlândia.
Quais os prazeres e as agruras de atuar em um clube de sua cidade, onde estão sua família, amigos e muitos fãs?
As mesmas características da cidade provocam os dois sentimentos. É um prazer jogar em um lugar onde fiz a minha carreira, onde as pessoas me conhecem e sabem do que sou capaz, onde as pessoas curtem o basquete como lazer, como diversão, amam a equipe. Talvez faça parte das agruras justamente a pressão por estar em um lugar onde todos te conhecem. Aqui você sai na rua e as pessoas te cobram, têm liberdade de conversar.
Você tem declarado que a próxima temporada (2014/2015) pode ser a sua última como jogador profissional. Encerrar a carreira em Franca é uma decisão já tomada, um plano antigo?
Sim, é uma decisão tomada e é bem provável que seja a minha última temporada jogando. Diria que há 99% de chances de ser a última temporada. Conversando com pessoas de quem gosto, da minha família e do basquete, muitos falam que acabaram a carreira de uma hora para outra, sem uma despedida. Acho que assim a gente já vai se preparando, porque se trata de um momento muito difícil para o atleta. Ir se preparando gradativamente, pensando naquilo, faz com que você sinta menos esse momento difícil. É difícil falar ‘eu vou parar de jogar o ano que vem’, porque amo fazer isso, sempre fiz isso e graças a Deus tive sucesso fazendo isso. Mas, pretendo parar de jogar no ano que vem em alto nível e depois vou ver o que vai acontecer.
A idade pesa nessa decisão?
Também. São vários fatores que vão influenciando. Sei que a maioria dos jogadores da minha geração já parou. Quero jogar e realizar coisas que a cabeça pensa e o corpo consegue realizar, ainda posso. Mas acho que gradativamente a gente vai perdendo isso e não quero deixar acontecer isso para depois parar.
Materialmente o basquete foi e é importante para você? Deu para ganhar muito dinheiro?
Foi importante também. O basquete me deu tudo o que tenho. Sou uma pessoa ponderada financeiramente falando. Sempre procurei investir o meu dinheiro de forma correta, errei e acertei. Mas posso proporcionar para a minha família uma casa bacana e outras coisas. Através do basquete, conheci muitos lugares, incluindo a América do Sul inteira, China, Austrália, Itália, Estados Unidos, Canadá. Isso é uma coisa que vou levar para o resto da minha vida. É uma bagagem cultural que prezo muito também.
E o futuro? Pretende seguir os passos de seu pai e se tornar técnico também?
Pretendo. Acho que posso, pela leitura de jogo que tenho, pelos relacionamentos que tenho. Tento pegar muito do meu pai, a autenticidade dele, a honestidade, tratar as pessoas de uma forma igual, sempre cobrando a coisa correta. Vamos ver. O futuro vai dizer se tenho realmente essa chance. Mas não me preocupo. Futuramente vamos ver se vou ser auxiliar técnico, depois me tornar técnico, não tenho muita preocupação em relação a isso. Pretendo, mas não deixo de dormir por causa disso. (...) Acho que a hora que parar vou ter a chance, quero ter a chance de desenvolver um trabalho fora da quadra.
E quem são os seus mais importantes ídolos no basquete?
Meu pai não diria nem que ele é meu ídolo, é uma inspiração, é uma referência, um norte para mim, um cara em quem procuro me espelhar todos os dias. Ele é autêntico, disciplinador, correto nas coisas que ele faz. Meu ídolo como jogador mesmo é o Michael Jordan. Para mim ele foi o maior de todos os tempos pelo o que ele era tanto dentro como fora das quadras. Tive a oportunidade de vê-lo jogando ao vivo. Hoje, um cara que admiro é o Tony Parker (armador francês do San Antonio Spurs, da NBA). Ele é um talento.
Você consegue citar quais foram as três melhores cestas de sua vida profissional?
Tive a felicidade de fazer algumas bolas importantes. Além daquela primeira do campeonato sulamericano, que citei no início, teve uma bola contra o Makenzie Barueri em um jogo para a gente se classificar para a final, em 1999, que, faltando três ou quatro segundos para acabar, com o jogo empatado, eu meti uma bola de três (pontos). Teve também uma bola, jogando pela seleção, na Austrália, que no estouro do cronômetro fiz a cesta e fomos medalha de bronze. Essas três me marcaram muito.
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