A família de Kelly Cristina Souza, 27 - que morreu em novembro após passar por três cirurgias em quatro meses na Santa Casa - contesta na Justiça a alegação de suposto suicídio dada pela entidade em Boletim de Ocorrência. De acordo com a mãe de Kelly, a auxiliar de cozinha Maria Marta de Castro, a demora de um ano e três meses para obter um diagnóstico de úlcera; a infecção generalizada causada pela retirada indevida de um dreno após a primeira cirurgia; uma segunda cirurgia dois meses depois para lavagem dos órgãos e erro de procedimento em uma terceira cirurgia também podem justificar a morte. A indenização pedida pelos representantes de Marta, por danos morais, é R$ 250 mil.
“Ela passou a apresentar alguns sintomas e diagnosticaram uma hérnia, além de algumas pedras na vesícula. Decidiram fazer a terceira operação”, conta um dos advogados que representa Maria, Tiago Teixeira Carrera. “Acontece que retiraram apenas as pedras. Em quatro meses realizaram três cirurgias em uma paciente debilitada e esqueceram o principal procedimento da última cirurgia: a retirada da hérnia. Tudo isso demonstramos nos autos”, completa.
Desnorteada pela ausência da filha, que deixou-a com uma neta de 9 anos, Maria Marta ficou em reclusão e não soube, por dois dias após a morte de Kelly, que a Santa Casa alegara uma suposta tentativa de suicídio para explicar a morte de sua filha. “Disseram que encontraram uma caixa de remédio faltando sete comprimidos no banheiro do seu quarto na Santa Casa. Fui então pedir o laudo para a Santa Casa (para confirmar a ingestão dos remédios) e me disseram para voltar dentro de um mês. Voltei e me disseram para voltar depois de sete meses. Foi aí que decidir procurar o doutor Tiago.”
De acordo com o advogado, o laudo para comprovar a alegação da Santa Casa foi requerido no processo protocolado em maio e corre o prazo de 60 dias para que a entidade apresente o documento em juízo - assinado por um perito oficial. “No atestado de óbito da minha filha está ‘causa indeterminada’ e eu quero saber, eu preciso saber e eu tenho o direito de saber o motivo. Tenho certeza que ela não se matou.”
Os questionamentos feitos pela mãe de Kelly não param por aí. O fato de sete comprimidos não terem sido encontrados numa cartela de remédios que sua filha vinha fazendo uso há algum tempo com prescrição médica não demonstra que ela, segundo a mãe, os tenha ingerido de uma só vez. “E se ela tivesse feito isso? Acharam ela caída no banheiro às 19 horas e afirmam ter visto a cartela ali. Se a suspeita era que ela tinha ingerido, por que não fizeram uma lavagem? Minha filha morreu depois da meia-noite.”
A Santa Casa comentou o caso na época, afirmando que o medicamento encontrado com a paciente não era prescrito para o tratamento de sua doença. O hospital afirmou que todo paciente internado na instituição recebe a medicação prescrita pelo médico para atender ao seu tratamento de acordo com sua doença. Entretanto, ocorre que muitos fazem uso de medicamentos de uso contínuo (anti-hipertensivo, antidepressivo, digitálicos, dentre outros). Essas medicações, como já são de uso corriqueiro do paciente, ficam com o mesmo para que sejam ministradas suas doses de acordo com a receita do profissional médico que o acompanha.
Saudade
Maria Marta ainda não superou a morte de Kelly. Na última quinta-feira, completou sete meses da perda, sentida pela mãe, pai, filha e irmã da jovem que se foi aos 27 anos. Diversas vezes emocionada durante sua entrevista ao Comércio, Maria Marta fez questão de pontuar os motivos que a fazem descrer um suicídio. “Ela tinha uma filha de 9 anos. Era responsável, esforçada e que queria viver. Tanto é verdade que ela procurava pelos médicos e já era conhecida do pronto-socorro. Se eu chegar lá hoje, eles vão me perguntar: cadê a sua menina? Chamavam ela de ‘Magrela’. Ela era sapateira, me ajudava dentro de casa e gostava de sair com os amigos. Era uma menina trabalhadeira (sic) que queria lutar pela filha. A intenção dela era alugar uma casa e se mudar daqui de casa com a menina. Ela tinha planos.”
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