A trajetória de juros altos e inflação está reduzindo a capacidade de pagamento do consumidor. Em maio um a cada quatro brasileiros tinha o seu CPF inscrito nos serviços de proteção ao crédito. No mês, o número de inadimplentes captado a partir do banco de dados do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) registrou alta recorde, avançando 9,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Essa é a maior variação anual já alcançada pelo indicador desde 2010, quando teve início a série histórica. Em relação a abril, o número de pessoas físicas inadimplentes aumentou 1,4%.
Entre abril e maio desse ano 1,2 milhão de pessoas maiores de 18 anos foram incluídas nos serviços de proteção ao crédito, somando 55 milhões de CPFs. Perto de 90% das dívidas registradas no SPC têm mais de 30 dias de atraso e 75% mais de 90 dias. Em maio, as dívidas cresceram 5,2% em relação ao mesmo período no ano anterior, sendo que a inadimplência com serviços básicos como água, luz e gás, avançou 11,4%, o dobro da média nacional. As dívidas com serviços de comunicação, como internet, TV a cabo e telefonia também cresceram 8,7%.
A situação mostra que a condução da política econômica está levando uma multidão de brasileiros a não conseguir honrar seus compromissos. E grande parte deste problema vem se arrastando desde 2008, quando o tsunami da crise mundial criou aqui uma ‘marolinha’, de acordo com palavras do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma série de pacotes foi criada para estimular o consumo, reduzindo impostos incidentes sobre bens -- como automóveis e eletrodomésticos da linha branca, como fogões e geladeiras. Àquela altura, aqui mesmo nesse espaço, o Comércio já alertava para a possibilidade da inadimplência principalmente envolvendo compra de automóveis, novos ou usados. E não deu outra.
Nesse tempo todo, mesmo diante dos alertas de especialistas, a equipe econômica do governo não procurou alternativas capazes de evitar esse rombo. Muita gente não conseguiu pagar as dívidas, a maioria delas em longo prazo, uma vez que a inflação continuou corroendo as finanças das famílias, trazendo em seu rastro o aumento de preços de bens de consumo e serviços. Os produtos alimentícios vêm subindo paulatinamente, corroendo o orçamento principalmente de quem ganha menos.
Enquanto não se buscar uma forma de evitar que quem ganha menos seja mais penalizado, vai ser difícil resolver esta questão, que afeta tanto devedor quanto credor. Perdem todos, causando a estagnação da atividade econômica. Não adianta o ministro Guido Mantega cobrar aumento no volume de crédito. Numa situação em que 1/4 da população economicamente ativa está inadimplente, não há muito que fazer. Enquanto não houver uma queda sensível na taxa de juros ao consumidor, que torna qualquer dívida impagável, não haverá condições de reduzir o calote. A situação é clara: mesmo querendo pagar, o brasileiro não consegue. E a bola de neve só faz crescer.
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