Quando surgiu, declarei: pretendo ser o último do mundo a usar telefone celular. Não me importa que me chamem de retrógrado, quadrado, anti-social. Deixando e ser uma novidade, a vaidade e ostentação deixaram também de justificar a febre competitiva inicial. O curioso é que agora muitos deixam o aparelho desligado, e a caixa postal se transforma em tranquila secretária eletrônica. Surpreendem-me comentários: ‘celular deixa minha vida impossível. Vou sair dessa’. ‘Viciados’ alegam: ‘só não largo porque acostumei’.
Meus motivos se mantêm inalterados, mas o que nem sempre consigo é livrar-me das consequências de outros usarem. Não custa citar exemplos: no restaurante, entre amigos, uma musiquinha desafinada sai do bolso de um deles. Sem qualquer consideração conosco, atende: ‘É você? Chegou inteiro em casa?’ (tinham estado juntos duas horas antes). Murmuram outras coisinhas e soa um ‘Tchau’. Vira-se para os amigos: ‘sobre o que conversávamos?’ E eles: ‘nada. Era coisa sem importância’. Na igreja, em pleno sermão, lá vem a musiquinha desafinada. O irado sacerdote interrompe o sermão, a atenção dos fiéis se desfaz. O celular ‘daquele’ não tinha sido desligado, por esquecimento.
Por que, afinal, tenho de interromper conversa com amigo presente, para ele atender um ausente? Deve um motorista desviar a atenção do trânsito, para tratar de banalidades com um importuno? Basta-me. Não quero celular. Durante séculos a administração do Brasil ficava em Portugal, e mensagens levavam dois meses para atravessar o oceano. Portanto havia demora de pelo menos quatro meses entre consulta e resposta, e, nem por isso o Brasil foi mal administrado. Pelo outro lado, nesta nossa época de comunicação instantânea, erros administrativos podem também ser instantâneos, e há exemplos abundantes. Quanto as consequências negativas, podem demorar a aparecer. O sucessor que se dane. Se eventuais interlocutores têm urgência, contem carneirinhos até eu voltar para casa. Fora de casa, não estarei disponível: Por favor, não me achem.
Jacinto Flecha
Médico
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.