‘Hoje, do nível do Pelé não tem não. Só destaco o Neymar na Seleção’


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Tricampeão brasileiro de futebol, Baldocchi diz que Brasil ‘está no páreo’. Jogador mora na região, na cidade de Batatais e, na semana em que o Mundial começa em terras brasileiras, relembra com orgulho a Copa de 70
Tricampeão brasileiro de futebol, Baldocchi diz que Brasil ‘está no páreo’. Jogador mora na região, na cidade de Batatais e, na semana em que o Mundial começa em terras brasileiras, relembra com orgulho a Copa de 70
O ano era 1970. A Copa do Mundo acontecia no México. O Brasil incentivava em coro: “pra frente, Brasil do meu coração”. No meio do campo, um batataense fazia história: José Guilherme Baldocchi, aos 22 anos, ocupava o posto de zagueiro central da Seleção Brasileira de Futebol que voltaria com a taça na mão e um tricampeonato para a história. Hoje, aos 68 anos e vivendo em Batatais, sua terra natal, Baldocchi é um misto de lembranças, orgulho, conhecimento técnico e simpatia.
 
Os campos do colégio São José, onde o ex-jogador estudou, foram os primeiros a testemunhar o talento do zagueiro que não demorou para galgar degraus na carreira profissional. Aos 16 anos, Baldocchi começou a escalada passando pelas categorias de base e profissional do Batatais Futebol Clube e, posteriormente, pelas equipes do Botafogo de Ribeirão Preto e Palmeiras. Perto de completar 22 anos e em data próxima ao seu casamento (15 de dezembro de 1969), um sonho que dava até medo de sonhar de tão deslumbrante se tornou realidade: ele estava convocado para jogar na Copa do Mundo do México. “Foi uma alegria só”, disse. E tinha um tempero extra: estava convocado para simplesmente jogar ao lado do Rei do Futebol, Pelé. “Tudo aquilo de bom que se fala do Pelé, ele é.”
 
De volta ao Brasil como campeão, a trajetória de Baldocchi teve continuidade no Corinthians, clube no qual permaneceu por cinco anos, e, posteriormente, no Fortaleza. “Mas joguei pouco, porque quebrei o pé e, em 1976, vim embora para Ribeirão para ser operado. Me recuperei e resolvi parar. Parei de jogar, porque de trabalhar não parei até hoje. Tenho propriedade agrícola. Comprei terras, arrendava para soja, milho, arroz. Depois veio o advento da cana e passamos a isto, até atualmente”, disse.
 
Hoje, no alto de sua experiência, quanto a Copa do Mundo que começa daqui a três dias, ele diz: “estamos no páreo”. Confira o bate-papo com o tricampeão (leia mais sobre o Mundial no Caderno Comércio na Copa Brasil 2014).
 
Como foi a sua infância e juventude em Batatais?
Foram ótimas, tanto que o que mais lamento é que não pude proporcionar a mesma coisa aos meus filhos e não posso aos meus netos. Jogava futebol na rua, no Centro de Cultura Física de Batatais. Ia à escola, mas meu afazer após a escola era futebol. Com a mudança do estilo de vida, hoje não podemos deixar as crianças na rua. Outro fato é que, hoje, a criançada já tem muita coisa. Você oferece uma bola e ele quer um videogame, um celular, um tablet. Então, para você tirar isso da criançada - minha neta ‘pititinha’ tem dois anos e já meche no tablete - e mandar praticar um esporte é mais difícil. Na minha época era só bola, e na rua. Tinha menos carros, morava no (bairro) Castelo, não tinha nem asfalto. A gente aproveitava a praça (da igreja Santa Cruz) e montava o gol. Foi uma infância formidável.
 
Como o senhor entrou efetivamente para o mundo dos esportes e como foi a sua trajetória pelos clubes?
Sempre adorei futebol. Nunca pensei que seria um jogador profissional e nem um campeão do mundo, mas a minha paixão, sempre, só aumentava. Fui estudar no Colégio São José e ali sempre incentivaram a prática de esportes. Tinha três campos de futebol e foi lá que comecei. Depois fui jogar no juvenil e posteriormente no profissional do Batatais Futebol Clube. Com 18 anos fui para o Botafogo de Ribeirão Preto e, em 1964, para o Palmeiras, onde fiquei até 1971 - um ano após a Copa do Mundo. Em 1971, na volta da Copa, fui para o Corinthians e fiquei por cinco anos. Depois houve um problema de renovação, briguei na Justiça do Trabalho e fui jogar no Fortaleza.
 
O que sentiu quando foi convocado, consegue descrever?
Foi em um período de fim de ano. O Palmeiras tinha sido campeão, estava de férias, me casei no dia 15 de dezembro de 1969 e era um período de expectativa. O problema era que analisávamos o número de jogadores bons (eram muitos) e sempre dependeu muito do estilo do treinador. Aí, o João Saldanha, que era o treinador, me convocou. Foi uma alegria só. Tinha vontade de ir e achava que poderia pela campanha que havia feito no Palmeiras. 
 
Quais as principais lembranças, como era a rotina e o convívio com os colegas na Copa de 70?
Em janeiro, no retorno das atividades, já fui para o Rio de Janeiro fazer exames. A Seleção de 70 treinou três meses seguidos antes de ir para a Copa. Na época o (Carlos Alberto) Parreira era o preparador físico e tinha como auxiliar o (Cláudio) Coutinho. Juntos, eles aplicaram o Método de Cooper (criado pelo médico americano Kenneth Cooper e desenvolvido com base no preparo físico dos soldados americanos da década de 60). Treinávamos três horas de manhã e três horas à tarde. O time se preparou muito bem para a Copa do México. Sobre o convívio, tenho dito que a Seleção do Felipão (Luiz Felipe Scolari) se parece muito com a seleção da Copa de 70. O grupo era muito bom. Se não houver um bom ambiente, união, tudo é difícil em qualquer atividade. Em 70, embora tivéssemos jogadores superconsagrados, que já tinham sido campeões do mundo, eles faziam força para os mais novos subiram. Era uma família só.
 
O que significa ter jogado com o Pelé, fazer parte da história ao lado do ‘Rei do Futebol’?
Isso é muito bom. Joguei contra ele durante muito tempo, foram uns seis anos correndo atrás dele. Aí, quando botam ele ao seu lado é bom demais. Pena que a televisão da época não tinha os recursos de hoje, não acompanhava tudo o que acontecia. Tudo aquilo de bom que se fala do Pelé, ele é. Hoje, do nível do Pelé não tem não. Só destaco o Neymar na Seleção.
 
Fazendo uma retrospectiva desde a Copa de 70, quais equipes merecem destaque?
Aquela Seleção que o Telê (Santana) dirigiu, em 1982, era excelente. Eles só não tinham um Pelé. O Zico não era o Pelé, o Sócrates não era o Pelé. Não deram sorte e não ganharam. A Copa do Mundo é uma competição muito curta, que às vezes você tem que ganhar jogando feio, defendendo, dando balão e tudo. É melhor do que jogar bonito, perder e ir embora. Não dá tempo.
 
O senhor gosta da forma de trabalho do técnico Luiz Felipe Scolari?
Acho excelente, principalmente na união do grupo. Tecnicamente não conhecemos bem os jogadores, eles estão todos lá fora (do país). Pela televisão não é possível ter a noção exata do que podem fazer. Acho que ele vai conseguir êxito. Ser campeão é outra coisa. Costumo dizer que favoritos são a Argentina, que tem o (Lionel) Messi, e Portugal, que tem o (Cristiano) Ronaldo. Então, deixa eles serem favoritos e vamos correr por fora, devagarzinho, não vamos fazer pressão de título para não ficar pesado, já que a maioria nunca disputou título.
 
Felipão acertou nas convocações?
Baseado no que esses jogadores estão jogando lá fora, acho que ele convocou o que tem de melhor. Um ou outro se destaca, mas não é isso que vai mudar a característica da equipe. Robinho e Kaká, Ronaldo Gaúcho já jogaram. Para deixá-los no banco, fica desagradável para ele e existe uma certa pressão que deixa a cabeça do treinador desse tamanho (faz gesto de grandeza). Então, também por isso, ele optou por levar essa meninada mais jovem, que aceita ficar no banco sem que haja pressão na cabeça dele. Acho certo, acho justo.
 
O senhor está confiante que o Brasil conquiste o hexacampeonato em casa?
Se falar que o Brasil é o melhor time, não é. Mas se falar também que tem outro muito melhor que o Brasil, também não tem. Está nivelado tecnicamente. Como a gente joga em casa e tem o Neymar, acho que estamos no páreo. O Felipão falou que a gente é favorito e acabou, mas eu não acho. Deve começar sem ser favorito. Sempre achei isso. Falar isso faz o outro time correr mais e todo mundo torcer contra. Mas acredito que o Brasil vá bem. Vai depender também de como esses meninos vão reagir diante da torcida pelo fato de estar em casa. A pressão sobre a equipe será muito grande. O Pelé falava muito em 70: ‘a gente tem que batalhar para ganhar, mas se sairmos perdendo, levantem a cabeça que devagarzinho a gente muda e reverte’. E isso foi real (em 70).
 
Quais características são essenciais para as seleções que pretendem brigar pela conquista do título em 2014?
O que vai ganhar a Copa do Mundo é o ataque. Serão dois ou três jogadores que se sobressaiam do meio de campo para frente. Falo assim: em 58 o Pelé e o Garrincha desequilibravam o adversário. Os caras não tinham nem noção do que eles fariam. Em 62 o Pelé machucou, mas o Garrincha assumiu a responsabilidade. Em 70 tinha o Pelé novamente, o Tostão jogou muito, o Jairzinho jogou muito, quer dizer, havia um diferencial grande na frente do time. Depois vieram Romário e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo, se analisarmos bem, foi por aí que fomos ganhando. 
 
Como é ter esse reconhecimento, de ser campeão, para o resto da vida. Isso tem preço?
É uma coisa que satisfaz o íntimo, nos faz sentir orgulho. Mas do que mais me orgulho é o fato de sempre Batatais ser lembrada. A maioria das pessoas que se recorda de quando jogava lembra da cidade de Batatais. 
 
O que pensa sobre os movimentos e protestos contra a Copa do Mundo do Brasil?
Acho que todo mundo tem o direito de fazer protesto, mas quebrar, banco, comércio, casa, assaltar supermercado é errado. Não concordo de jeito nenhum. Agora, um protesto contra a Copa tem todo o direito de fazer. Penso, por exemplo, que não precisaria de 12 sedes para fazer a Copa. Com quatro ou cinco sedes a gente faria o campeonato do mesmo jeito. Já que foi feito e tudo de última hora, encarecendo tudo, o povo tem razão de gritar porque aqui falta escola, transporte de qualidade, segurança para todo mundo. (Protesto) é um jeito de o mundo ver como as coisas estão aqui.

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