Em Brasília, semana passada, um grupo de indígenas protestava contra a demora na demarcação de suas terras. Protesto vai, protesto vem, o grupo acabou integrando-se numa passeata contra a Copa Mundial de Futebol. Em conseqüência dos distúrbios, um policial acabou ferido por uma flechada que atingiu uma de suas pernas. Se a moda pega, poderemos ter uma nova versão da Confederação dos Tamoios. Se tivermos uma nova Confederação, é bem provável que os estrangeiros, ao invés de virem para a Copa, virão e, provavelmente, em um número muito maior para assistir à Revolta dos Gentios. Os gols de Neymar ou as defesas de Júlio César ficarão em segundo plano. Aos estrangeiros, interessará muito mais a observação dos grupos aborígenes movimentando-se de um lado para o outro com as caras pintadas ou cobertas por máscaras de guerra, com seus tacapes, arcos, flechas, lanças. Interessar-se-ão muito mais pelas danças rituais, pelos gritos de guerra, pelos comportamento e costumes dos selvagens. Voltarão para a Europa com seus cadernos, ou melhor, note books repletos de observações etnológicas que , num futuro bem próximo, servirão como base para teses defendidas na Sorbonne sob os usos , os costumes e a agressividade dos nativos dos nossos “tristes trópicos”.
O Brasil tornou-se o país dos protestos. Protesta-se contra a falta de terras para os trabalhadores rurais, contra a falta de teto para os desabrigados, contra a precária situação de nossas escolas , de nossos hospitais, da segurança pública. Enfim, protesta-se contra tudo e em qualquer lugar. Nas capitais, ruas e demais logradouros públicos são tomados de assalto sem nenhum aviso prévio. Nas rodovias, levantam-se barricadas, queimam-se pneus e o trânsito é interrompido. O direito de ir e vir e o de ocupar é plenamente garantido aos manifestantes. Quanto aos trabalhadores que vão para os seus empregos, os estudantes para as suas escolas, os doentes para os hospitais, que esperem, esperem e apreciem a maravilhosa marcha dos “descamisados” em defesa da “democracia totalitária”.
Eu não sou contra os protestos das minorias organizadas. Os protestos são indícios da vitalidade social. Muitos são justos, oportunos e necessários. Mas, protestar pelo simples prazer de protestar é, no mínimo , burrice. É falta do que fazer. E, apesar de tantos protestos, nas próximas eleições são escolhidos os mesmos vereadores, os mesmos prefeitos, os mesmos deputados, os mesmos senadores, os mesmos governadores e os mesmos presidentes.
Vejam bem os prezados leitores: esses protestos contra a realização da Copa são, no mínimo, inúteis. A Copa será realizada queiram ou não os manifestantes. Porque quando o Brasil se ofereceu para sediar o campeonato, ninguém saiu às ruas para reclamar. Agora é tarde. Se os manifestantes estão revoltados contra a corrupção e o desperdício do dinheiro público, não vai faltar oportunidade para as manifestações . No Brasil - no momento em que políticos, burocratas e empresários se associam para algum empreendimento- pode-se ter certeza de que uma bandalheira está sendo urdida. Portanto, vamos “curtir” a Copa e acalmar os gentios.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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