São inseparáveis, o espelho e a mulher.
Arquiamigos/ inimigos.
Espelho é mulher virtual:
Imagem invertida, e igual.
Mulher e espelho: conexão indissolúvel
De prazer indispensável
E sofrimento inevitável.
O espelho, incômodo,
Observa a mulher,
Analisa, fiscaliza,
Tortura a mulher.
Desmascara tempo,
Invalida sonhos,
Com uma cara cristalina, impiedosa,
De confidente cruel.
Às vezes, é lisonjeiro:
Adoça a mente, satisfaz a alma,
Regala olhos e coração:
Mostra uma Vênus gloriosa
Ou uma estrela (cadente?)
Muito além de Sírius e Andrômeda.
Sonhadora, a mulher
Observa o espelho,
Interroga o espelho,
Namora o espelho...
Mas nem sempre aceita
Seus elogios provisórios.
Verdade mesmo é o tempo,
Indisfarçável, incorrigível.
Vaidosa, às vezes, tímida;
Sensual, às vezes, pueril
(mas sempre mulher,
incontestável, inexoravelmente mulher),
Quer mudar formas, linhas e sombras;
Corrigir escritos do tempo;
Negar verdades da física;
Anular a gravidade(!);
Refabricar-se, reinventar-se.
Mas diante do espelho predatório,
A mulher é nua, sem máscara,
Incapaz de subterfúgios.
Não adianta esconder-se,
Dissimular os defeitos,
Intentar anacronismos.
Ele a conhece tão bem!...
Porque ele é ela em verdade
(embora imagem invertida).
Então (diante de si) a mulher presente emerge.
Contempla-se, desnuda-se, sofre...
E entende certas coisas
Que não queria entender
Do cambiar constante da vida.
Abre ainda mais os olhos
E, não sem dor,
Encara a outra mulher.
Um corpo que não é seu corpo,
É mero fruto do tempo;
Um rosto trazido de antanho,
De algum antepassado,
Imagem opaca, rasurada:
Crua vida revelada.
Beleza?
Subentendida.
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