O solar


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Parei o carro perto do riacho, para admirá-lo. Desci cuidadosamente, livrando-me da galharia seca. Divisei surpreso o palacete em ruínas, mostrando ainda, na sequência de janelas desvidraçadas, o seu porte altaneiro.
 
Fiquei a admirá-lo e a me perguntar como fora o seu passado. E descobri, assustado, um vulto feminino numa das janelas. Jovem e bonita. Saudei-a, sorridente:
 
- Olá!
 
Ela recuou e desapareceu. Esperei um pouco e desisti. Fui ao riacho, pensando no casarão e na moça bonita. Molhei o rosto e o refrigério das águas cristalinas livrou-me do cansaço.
 
Retornei e voltei a olhar as ruínas do que fora uma mansão soberba. Ninguém nas janelas.
 
Alcancei a estrada. Uma moça esbelta, nova e bonita, junto do carro.
 
- Era você que estava na janela daquele casarão?
 
- Era.
 
- O que estava fazendo lá?
 
Desconversou:
 
- Pode me levar até ali adiante? Moro lá.
 
- Entre.
 
Acomodou-se ao meu lado. Acelerei. A estrada, sem curvas, abria-se a nossa frente. Examinei a moça. Tão nova e tão bonita.
 
- O que estava fazendo naquela casa?
 
- Nada. Às vezes vou lá, a pé. 
 
Não falou mais nada. O silêncio perdurou e a pequena cidade surgiu. Apontou:
 
- Fico ali. Desça um pouco.
 
Parei em frente a uma casa modesta. Entrou, chamou-me, entrei. Sentei e suspirei. Família numerosa. Trouxeram-me café e bolachas. Ela pediu ao velho:
 
- Conte, vovô.
 
Ele, tão velho que não tinha mais o que envelhecer, tossiu, sentou-se perto de mim e contou-me a história alegre, triste, sofrida, bela e assustadora do austero solar.
 
Os anos correram e, ao longo deles, fui repetindo o que ouvira. 
 
E neste entardecer, ao lado da envelhecida moça da janela, já tão velho que não tenho mais o que envelhecer, conto mais uma vez, aos que me ouvem, a história alegre, triste, sofrida, bela e assustadora do austero solar.
 
Uma voz destacou-se, curiosa:
 
- Nunca mais voltaram lá?
 
Ela se antecipou:
 
- Não. Desde o dia em que entrei no carro dele, esperando na beira da estrada. 

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