Mais uma família francana que perdeu um de seus membros acusa a rede pública de negligência e descaso. A caseira do Centro Comunitário da Vila São Sebastião, Lúcia Modesto de Souza, de 51 anos, morreu na última quarta-feira, 28, nove dias após realizar uma cirurgia de vesícula, através da Prefeitura de Franca, na Santa Casa de São Joaquim da Barra. Para os familiares de Lúcia, a “má” realização do procedimento unida à demora da Santa Casa de Franca em realizar uma nova cirurgia para interromper uma infecção causou a morte da caseira. Lúcia deixa marido, dois filhos e um neto.
O Hora da Verdade Itinerante, da rádio Difusora, percorre os bairros de Franca todas as sextas-feiras. O programa apresentado por Leandro Vaz com comentários de Corrêa Neves Júnior estava planejado, desde a última semana, para acontecer na praça da Vila São Sebastião, em frente à casa da família de Lúcia. Mesmo abalado, o filho caçula da caseira, Samuel Modesto, participou ao vivo e contou o drama enfrentado por sua mãe.
Segundo ele, a caseira esperou três anos para realizar a cirurgia de vesícula. Há algumas semanas, a Secretaria Municipal de Saúde ligou avisando que a operação estava marcada para o dia 19 de maio, em São Joaquim da Barra. Segundo Samuel, sua mãe realizou exames pré-operatórios há cerca de um ano e, para a realização da cirurgia, não foram pedidos novos exames.
“A previsão de alta era no mesmo dia à tarde, mas como ela não estava se sentindo bem continuou internada. Ela teve alta na quarta-feira, 21 de maio, mas chegou (a Franca) se sentindo muito mal. Antes estávamos achando que era normal da cirurgia, mas como ela piorou muito a levamos para o pronto-socorro na quinta (22) à tarde.”
Após dar entrada no PS, Lúcia foi, segundo o filho, medicada e passou por exames que constataram infecção e falha nos rins. Ela foi encaminhada para a Santa Casa de Franca, mas a vaga saiu apenas na manhã de sexta-feira (23), após Lúcia passar a noite toda no pronto-socorro. Na Santa Casa, exames foram feitos e, além de confirmarem os resultados do pronto-socorro, identificaram também um abcesso na cirurgia. Com o início do tratamento, a caseira apresentou, segundo os familiares, melhora apenas nos rins.
O filho mais velho de Lúcia, Adriano Modesto, também falou ao Comércio e relatou que, na tarde de domingo (25), Lúcia apresentou febre e dificuldade para respirar. No dia seguinte, os médicos da Santa Casa cogitaram a necessidade de cirurgia para retirada do abcesso, porque os antibióticos não surtiam efeito e a caseira não melhorava. Na terça (27), a necessidade da cirurgia foi, segundo Adriano, confirmada pelo médico, mesmo assim Lúcia morreu sem realizar este segundo procedimento.
“Eles chegaram à conclusão de que iria ter que abrir ela para fazer a limpeza desse abcesso. Ela ficou de jejum, mas não operou. Parece que o médico que iria realizar a cirurgia não apareceu e cancelaram. Na terça-feira à noite, pediram jejum de novo porque a informação que tinha era que minha mãe iria fazer a cirurgia na quarta-feira, mas não fizeram de manhã e ela morreu à tarde.”
Era por volta das 15 horas de quarta-feira quando Lúcia começou a se sentir mal. Na primeira vez ela melhorou após colocarem oxigênio e confessou ao filho mais velho que achava que iria morrer. Já na segunda vez, ela teve convulsão e não reagiu mais. “Cada vez que abriam a porta eu via eles fazendo massagem nela. Depois de meia hora, eles já abriram a porta para dizer que ela havia falecido.”
A Santa Casa de Franca apontou, segundo Adriano, como causa da morte de Lúcia uma “tromboembolia pulmonar” em razão de “cirurgia de colecistectomia” e “coleção na região do abdômen em investigação”. Para contestar o laudo, Adriano registrou boletim de ocorrência por morte suspeita e pediu necropsia do corpo. O legista do IML (Instituto Médico Legal) de Franca, Marco Tosi Maniglia, constatou, segundo a certidão de óbito, morte por “choque séptico; abdômen agudo inflamatório, pós-operatório e colecistectomia”.
“Eles (a Prefeitura e a Secretaria de Saúde) para acabar com esta fila de cirurgias eletivas ficam jogando a população para tudo quanto é cidade que não tem suporte. Eles fazem ‘nas coxas’. Fizeram a cirurgia da minha mãe de maneira errada lá, ela veio com o problema e a Santa Casa foi muito displicente e não deu a atenção que devia ao caso dela. Se tivessem operado minha mãe na terça-feira, ela estaria viva e aqui comigo”, disse Adriano.
O corpo de Lúcia foi enterrado na tarde da última quarta-feira no cemitério Jardim das Oliveiras.
Sem respostas
O Comércio encaminhou e-mail e ligou para as assessorias de imprensa da Prefeitura e da Santa Casa de Franca, questionando sobre os atendimentos prestados por cada um à caseira, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
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