Foi em meio a pausas e choros contidos que a microempresária Maria da Conceição de Freitas Melite falou sobre a morte de seu pai, João de Freitas Sobrinho, 87, que há um ano foi derrubado da maca por socorristas enquanto era colocado em uma ambulância que seguia para a Santa Casa, para tratamento de hemodiálise. “Entraram em casa correndo e saíram correndo. Lá fora, deixaram meu pai cair e ele bateu a cabeça na sarjeta. Ouvi muitos gritos”, relembra. “Eles pegaram meu pai do chão, colocaram na ambulância e, ao invés de o levarem ao Pronto Atendimento, o levaram para a hemodiálise, como se nada tivesse acontecido.”
Depois de ser encaminhado ao Pronto Atendimento, teria ficado entre as 11h20 e 17 horas à espera da visita do médico, mas logo foi liberado “Ele disse que não havia vaga e chamou a ambulância para trazê-lo de volta para casa. Às 21 horas a ambulância chegou.” Nesse meio tempo, o acidentado teria permanecido sem comer.
Sem dormirem durante a madrugada do dia 22 de maio de 2013, pai e filha voltaram à Santa Casa. “Chegamos às 9 horas e pediram uma tomografia. No exame ficou constatado um coágulo na cabeça. Disseram para aguardar o cirurgião, que não apareceu. O dia todo tive a esperança de que ele viria”, disse Maria. “Nos relatórios que tenho (da Santa Casa e Cremesp - Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), os médicos que substituíram o primeiro a nos atender disseram que não sabiam que meu pai estava na Santa Casa.” À uma hora da manhã do dia 23, João morreu.
A morte deixou várias interrogações para Maria, que se diz incapaz de ter paz. “Por que o médico (que substituiu o plantonista) não tomou conhecimento de que meu pai estava na Santa Casa? Por que não internaram ele no dia da queda? O que eu deveria ter feito para que meu pai tivesse um atendimento adequado?” Respostas para essas e outras perguntas, Maria tem a esperança de um dia receber da Justiça, da Secretaria Municipal de Saúde e do Cremesp. “Ele era uma pessoa muito lúcida e que não tomava medicamentos para o coração, pressão, ou qualquer outro problema que não a insuficiência renal. Ele não tinha um motivo para ir a óbito.”
Em resposta, a Santa Casa afirmou em nota que “em relação ao caso do paciente sr. João de Freitas Sobrinho, a Santa Casa cumpriu todos os protocolos cabíveis”.
Processo arquivado
A morte do aposentado tornou-se processo judicial, mas o caso foi arquivado. De acordo com o promotor de Justiça Joaquim Rodrigues Rezende Neto, as provas do inquérito não apontavam ação culposa. “Não vislumbrei qualquer conduta culposa por parte dos socorristas. O laudo do IML (Instituto Médico Legal) diz que a causa da morte é indeterminada. Não sabemos se o traumatismo crânio-encefálico decorrente da queda foi o fator determinante da morte.”
Embora não tenha constatado conduta criminosa, o promotor chama a atenção de um fator passível de processo na esfera civil. “A maca que equipava a ambulância que foi buscar o sr. João apresentava vários defeitos, além do próprio desgaste. O mais grave era ter apenas um cinto de segurança, quando deveriam ter três. Os socorristas trabalham com uma maca sem qualquer condição. Eu pondero que deveria ser apurada a responsabilidade civil da municipalidade.”
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