Morte de aposentado que caiu de maca de ambulância completa um ano


| Tempo de leitura: 3 min
Maria da Conceição Melite mostra foto de seu pai, João de Freitas Sobrinho, 87, morto há um ano
Maria da Conceição Melite mostra foto de seu pai, João de Freitas Sobrinho, 87, morto há um ano
Foi em meio a pausas e choros contidos que a microempresária Maria da Conceição de Freitas Melite falou sobre a morte de seu pai, João de Freitas Sobrinho, 87, que há um ano foi derrubado da maca por socorristas enquanto era colocado em uma ambulância que seguia para a Santa Casa, para tratamento de hemodiálise. “Entraram em casa correndo e saíram correndo. Lá fora, deixaram meu pai cair e ele bateu a cabeça na sarjeta. Ouvi muitos gritos”, relembra. “Eles pegaram meu pai do chão, colocaram na ambulância e, ao invés de o levarem ao Pronto Atendimento, o levaram para a hemodiálise, como se nada tivesse acontecido.”
 
Depois de ser encaminhado ao Pronto Atendimento, teria ficado entre as 11h20 e 17 horas à espera da visita do médico, mas logo foi liberado “Ele disse que não havia vaga e chamou a ambulância para trazê-lo de volta para casa. Às 21 horas a ambulância chegou.” Nesse meio tempo, o acidentado teria permanecido sem comer.
 
Sem dormirem durante a madrugada do dia 22 de maio de 2013, pai e filha voltaram à Santa Casa. “Chegamos às 9 horas e pediram uma tomografia. No exame ficou constatado um coágulo na cabeça. Disseram para aguardar o cirurgião, que não apareceu. O dia todo tive a esperança de que ele viria”, disse Maria. “Nos relatórios que tenho (da Santa Casa e Cremesp - Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), os médicos que substituíram o primeiro a nos atender disseram que não sabiam que meu pai estava na Santa Casa.” À uma hora da manhã do dia 23, João morreu.
 
A morte deixou várias interrogações para Maria, que se diz incapaz de ter paz. “Por que o médico (que substituiu o plantonista) não tomou conhecimento de que meu pai estava na Santa Casa? Por que não internaram ele no dia da queda? O que eu deveria ter feito para que meu pai tivesse um atendimento adequado?” Respostas para essas e outras perguntas, Maria tem a esperança de um dia receber da Justiça, da Secretaria Municipal de Saúde e do Cremesp. “Ele era uma pessoa muito lúcida e que não tomava medicamentos para o coração, pressão, ou qualquer outro problema que não a insuficiência renal. Ele não tinha um motivo para ir a óbito.”
 
Em resposta, a Santa Casa afirmou em nota que “em relação ao caso do paciente sr. João de Freitas Sobrinho, a Santa Casa cumpriu todos os protocolos cabíveis”.
 
Processo arquivado
A morte do aposentado tornou-se processo judicial, mas o caso foi arquivado. De acordo com o promotor de Justiça Joaquim Rodrigues Rezende Neto, as provas do inquérito não apontavam ação culposa. “Não vislumbrei qualquer conduta culposa por parte dos socorristas. O laudo do IML (Instituto Médico Legal) diz que a causa da morte é indeterminada. Não sabemos se o traumatismo crânio-encefálico decorrente da queda foi o fator determinante da morte.”
 
Embora não tenha constatado conduta criminosa, o promotor chama a atenção de um fator passível de processo na esfera civil. “A maca que equipava a ambulância que foi buscar o sr. João apresentava vários defeitos, além do próprio desgaste. O mais grave era ter apenas um cinto de segurança, quando deveriam ter três. Os socorristas trabalham com uma maca sem qualquer condição. Eu pondero que deveria ser apurada a responsabilidade civil da municipalidade.”

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários