De primeiro (7)


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De primeiro, disputava-se o campeonato amador de futebol aqui na cidade. Afora o campo do Comercial, localizado nas proximidades da escola Pestalozzi, que era de terra batida, os campos eram gramados e cercados. Eram eles:o do Fulgêncio, o do Palmeirinhas, o da Francana e o do Internacional. O time do Iara mandava seus jogos no campo do Palmeirinhas.
 
A persistência do êxodo rural espichava a periferia para todos os lados, e bons atletas chegavam de Delfinópolis, de Cássia, de São Tomás de Aquino, de Ibiraci, de todo noroeste mineiro. Vinham para trabalhar nas fábricas de calçados, nos curtumes. Então, as indústrias começaram a montar duas equipes de futebol, sobressaindo, dentre elas, as do Samello, a do Rui de Mello, a do Amazonas.
 
O ex-craque Capeta conserva inestimável acervo fotográfico dessa época, quando cresceu muito a auto-estima do povo da Estação. O Internacional disputou por duas vezes o campeonato de futebol amador do Estado de São Paulo e disputou uma melhor-de-três com o time profissional da Francana. Ganhou apenas um dos três jogos, mas essa Vitória ficou para sempre gravada na história do esporte daquele bairro.
 
O orgulho dos esportistas da Estação se acentuou quando o Ciede de Freitas criou a Liga Varzeana do Distrito da Estação. A entidade organizou os primeiros campeonatos varzeanos, cujos jogos entre São Paulinho e União, entre Laranjeiras e Luso Brasileiro atraíam perto de duas mil pessoas para o arredor dos campos.
 
Certa vez, um técnico estrangeiro, Freitas Solich, parece-me, veio treinar a Francana. Desejoso de aproveitar valores locais, fez convite para testes. Cerca de duzentos atletas compareceram ao treino, lá no campo da Rua Simão Caleiro.
 
Essa pujança de atletas se explica.
 
A industrialização do país acontecia. Na ânsia de apressá-la, as autoridades ignoravam qualquer política agrária,  fechando os olhos às condições sub-humanas do trabalho no campo. Então as pessoas, aos montes, vinham para a cidade, em busca de um sonhado salário mínimo.
 
Graças a esse movimento, Franca tornava-se cidade grande.
 
À época, o lazer mais acessível aos jovens da periferia era o futebol, porque eles mesmos , enxadas na mão, construíam seu campo nos imensos terrenos vazios. Eles próprios compravam troncos de eucalipto, fincavam as traves, colocavam os travessões. Redes não havia. Eram desnecessárias, já que todos enxergavam muito bem se a bola passara, ou não, entre as balizas. E assim se reproduziram, pelos quatro cantos da cidade, o Água Verde, o Real Madrid, o Barcelonas, o Bandeirantes...
 
Quando o preço do cinema se tornou acessível ao trabalhador, e quando o crediário permitiu a aquisição do rádio, do toca-disco, a febre pelo futebol arrefeceu.
 
Quando a televisão chegou, o esporte amador começou a morrer.

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