Oração aos (bons) moços


| Tempo de leitura: 3 min
Mês passado, uma ligação telefônica me surpreendeu. Um jovem francano, bacharel em comunicação social por conceituada universidade mineira se apresentou, e, rápida e objetivamente, perguntou se eu poderia treiná-lo em Protocolo e Cerimonial. Franzi o nariz. (Ministrei treinamento do tipo há alguns anos a grupo integrado por prefeito de cidade da região, presidentes e funcionários de entidades, profissionais graduados de uma estatal e alguns cidadãos comuns. Um, desempregado à época, utilizando os conhecimentos recebidos dedicou-se a prestar serviços ao mercado. Certamente premido pela urgência de ganhos rápidos, cedeu a contratantes desinformados e quebrou regras, dando origem a precedentes ingerenciáveis. Decidi-me não treinar mais ninguém para o setor.)
 
Continuei ouvindo o jovem. Como que percebendo meu pé atrás, insistiu: ‘cheguei ao senhor (sic) por referência de uma estatal para a qual treinou gente. No meu caso, quero me preparar para fase final de concurso que busca cerimonialista para a câmara municipal de cidade da região de São Paulo’. Interessei-me. Contou-me que já tinha ultrapassado a primeira parte do concurso desbancando centenas de concorrentes por vaga, e, entre os 40 que seguiriam à fase de exame prático, ‘queria passar, porque queria uma carreira, segurança para si e para os seus’. Convenci-me. Trabalhamos juntos. Absolutamente focado, interessado, propositivo, rapidamente dominou todos os conceitos. O restante foi prática, nós dois tentando ‘advinhar’ o que lhe pediriamno exame. Não me restaram dúvidas sobre suas capacidades.
 
Ontem, me ligou. ‘Não consegui. Praticamente não tive problemas com as cinco partes da prova, mas, despreocupei-me de detalhes que conheci, mas deixei para lá e não alcancei os décimos de pontos que me tiraram o cargo. Ligo para agradecer. Aprendi o que não sabia e superei praticamente tudo. Continuarei tentando’. Não tenho dúvida que ainda vamos ouvir falar muito, e bem, deste jovem. 
 
 
POR QUÊ? Meus leitores devem estar se perguntando sobre razões para escrever a história que acabo de contar. Não, não é propaganda sobre meu trabalho ou especialidades. É porque vi nele, o que gostaria de ver em todos os jovens deste país: foco, determinação, dedicação absoluta à educação e ao trabalho duro, carinho e respeito por seus pais e professores. Ando muito descrente. Esta semana contei histórias de jovens francanos envolvidos com o crime ou personagens de ações impensadas geradas por educação não ensinada em casa. No Jornal da Noite da rádio Difusora — que apresento de segunda a sexta-feira, entre 18h30 e 19 horas —, junto ao repórter policial Barros Filho tento extrair, de cada nota policial, lições de cidadania. Falamos de um menor de 13 anos, ‘apreendido’ por medida sócio-’educativa’, e, que, liberado, tornou à ‘sua atividade principal’, o comando de um ponto de tráfico(!); de menina de oito(!) anos, que, impedida de ir à aula de educação física porque não fez tarefas passadas em sala, agrediu a professora; e de outro que, detido com dois maiores enquanto se preparava para assaltar posto de combustível, afirmou aos policiais que a arma que o grupo portava ‘era dele’, conhecedor de leis que impedem punição a menores. Por força de pais que não educam e de leis estapafúrdias que não permitem que jovens trabalhem — ‘para ficar na escola’ que não foi estruturada a cumprir as finalidades do ECA —, quando acordam põem-se a planejar seu ‘dia do trabalho’: assaltar, furtar, roubar, traficar, prostituir, e rir do ‘terror’ que haverão de impingir às suas vítimas. 
 
Neste Brasil de juventude mais de páginas policiais do que agindo para o bem, cumprimentar a determinação do moço cuja história contei na nota principal desta coluna é mais que obrigação. Eu diria, oração, para que a revolução de ética e caráter que temos que empreender a qualquer custo, dê certo...
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários