Inocentado por assassino escolhe Franca para viver


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Robério Ribeiro Cruz, 41, vive com a mulher em uma casa modesta na Vila Santa Maria do Carmo
Robério Ribeiro Cruz, 41, vive com a mulher em uma casa modesta na Vila Santa Maria do Carmo
Há três anos, Robério Ribeiro Cruz, 41, vive com a mulher em uma casa modesta na Vila Santa Maria do Carmo. Trabalha como pedreiro de segunda a segunda e não tem muitos amigos. Homem de fé, costuma rezar à noite e, como muitos francanos, tem o sonho de uma velhice tranquila. A rotina do pedreiro começou a mudar no último domingo. Uma reportagem sobre Francisco das Chagas Rodrigues de Brito, o maior assassino em série do Brasil no Fantástico, da Rede Globo, trouxe à tona o passado de Robério, que até um dia antes nem sua mulher conhecia. 
 
Robério passou 6 anos, 6 meses e 14 dias preso por um crime que não cometeu e só foi solto depois que Chagas, o verdadeiro assassino, confessou. Hoje tenta reconstruir a vida em Franca e sonha com a indenização que cobra do Estado do Maranhão, onde foi preso.
 
Passados quase 16 anos, Robério ainda lembra detalhes do 18 de agosto de 1998. “Estava saindo da casa de um amigo, quando uma Fiorino branca parou em frente ao portão. Dois homens desceram com um papel na mão e perguntaram se eu era Robério Ribeiro Cruz. Assim que respondi que sim, eles me algemaram.”
 
Robério diz que ficou muito irritado e perguntava aos homens porque estava sendo preso e para onde seria levado. “Eles não respondiam. Pelo trajeto, percebi que iam para São Luiz.” À época, o pedreiro, de então 24 anos, morava na cidade de São José do Ribamar, na região metropolitana de São Luiz, no Maranhão, onde haviam ocorrido diversos assassinatos de garotos. Entre eles, o do filho de 11 anos de uma ex-amante de Robério. 
 
Os homens eram policiais e levaram o pedreiro para a Delegacia de Homicídios de São Luiz. Foi lá que Robério descobriu do que era acusado. “O delegado me disse que minha casa tinha caído, que era melhor eu confessar o assassinato do garoto. Nem sabia de que garoto estava falando. Só quando me mostrou uma foto, é que reconheci o Júlio.”
 
Júlio César Pereira era o filho da amante de Robério. Ele estava desaparecido havia um mês e seu corpo, já em avançado estado de decomposição, foi encontrado em uma mata. Júlio tinha o pênis cortado e sinais de tortura. “Não era a primeira morte deste tipo. A sociedade cobrava uma resposta e a Polícia me escolheu como bode expiatório.” 
 
Robério já tinha terminado o caso com a mãe de Júlio, mas mantinha amizade com o garoto a quem, de vez em quando, costumava dar carona na bicicleta. “A mãe contou isso à polícia e eu fui preso. Na delegacia, me torturaram até que aceitasse assinar a confissão. Não me deixaram falar com ninguém.”
 
Com a confissão, Robério teve a prisão decretada. “Fiquei preso na delegacia mesmo. Eles me doparam no dia da reconstituição para que fizesse o que eles queriam. Mesmo assim, na entrevista para a imprensa, eu disse que era inocente. Ninguém acreditou.” 
 
A condenação
O julgamento do caso demorou. Durante quatro anos, Robério permaneceu preso, mudando de delegacia para delegacia. “Eu não tinha dinheiro para pagar advogado. Então o caso ficou esquecido. Por conta da repercussão, meu casamento acabou. Eu tinha dois filhos pequenos à época, que cresceram tendo o pai chamado de assassino.”
 
Sua condenação aconteceu em 2002. “O julgamento foi bem rápido. O juiz não permitiu que minha testemunha de defesa fosse ouvida. Fui condenado a 18 anos e seis meses de prisão. Depois, o promotor recorreu e ‘ganhei’ mais três anos.”
 
Com uma pena de 21 anos e seis meses para cumprir, Robério foi transferido para o atual pior presídio do Brasil, o de Pedrinhas. “Lá, tive que ser colocado no ‘seguro’, onde ficam os presos ameaçados. Mesmo não tendo contato direto com os outros presidiários, eu recebia ameaças todos os dias. Não sabia se acordaria vivo. Lá, conheci o pior lado do ser humano, mas sobrevivi.”
 
Robério lembra que, por duas vezes, tentou se suicidar. “Eu usei a Q.Boa (água sanitária) que eles dão para a gente lavar a cela e bebi. Passei mal, mas não morri. Depois tomei creolina. Fui para no hospital, mas também sobrevivi.”
 
Dois anos e meio depois, em um sábado pela manhã, enquanto estava no culto evangélico, Robério foi chamado por um amigo para escutar a entrevista que Francisco das Chagas dava a uma rádio. “Ele estava narrando o caso do Júlio. Contava detalhes da morte que eu nem sabia. Parecia um milagre. Todos os que ouviam diziam para mim que aquela entrevista era a minha liberdade.” 
 
Não demorou para que o advogado de Robério entrasse com um pedido de revisão criminal. “Levou um ano ainda até que eu fosse solto. Sai por causa de um habeas corpus.” 
 
A liberdade
Antes de deixar o presídio, em uma das audiências da revisão criminal, Robério ficou cara a cara com Francisco das Chagas. “Eu não sabia quem ele era. Ele só olhou para mim e chorando me pediu perdão. Disse que eu estava preso por um crime que ele havia cometido e perguntou se eu podia perdoá-lo. Eu só respondi que sim. Depois o delegado que estava na sala perguntou se eu o conhecia e se éramos amigos, eu disse que não. Nunca mais tive contato. Pelo que sei, ele continua preso em Pedrinhas.”
 
O pedreiro disse não sentir raiva ou rancor do assassino. “Simplesmente não sinto nada. De certa forma, ele me ajudou. Por causa da confissão, eu hoje posso ter uma vida. Se não fosse ele falar, talvez ainda estivesse na cadeia. Para mim, ele é um doente.”
 
A tão esperada liberdade veio em 2005. “No dia em que fui solto, uma multidão de fotógrafos e repórteres me esperava do lado de fora do presídio. Eu achei que era por causa de algum figurão que tivesse sido preso. Mas não era. Era por mim causa mesmo.”
 
O pedreiro achou que, com a confissão de Chagas e sua liberdade, poderia retomar a vida sem problemas. Estava errado. “Muita gente não acreditou no Chagas e continuou me considerando culpado. Além disso, ser ex-presidiário não é fácil. Todo mundo sabia da minha história no Maranhão. Não tinha para onde fugir, sempre me apontavam na rua. Levei três anos para conseguir um emprego. Não foi fácil. Aliás, não é fácil até hoje.”
 
Sem conseguir paz em São José do Ribamar, Robério decidiu descansar na casa de um dos seus irmãos que estava morando em Franca. “Viajei três dias e três noites. E adorei aqui, porque ninguém sabia quem eu era. Podia, finalmente, viver. Não quis mais voltar.”
 
Robério conseguiu um emprego de vigia e conheceu sua atual mulher. “Moramos juntos há dois anos e meio. Eu não sabia dessa história do assassinato. Ele tinha me dito que havia tido problemas por conta de uma mulher. Tomei um susto quando me contou um dia antes da reportagem ir ao ar”, disse ela, que preferiu não se identificar. 
 
Hoje o processo de revisão criminal de Robério ainda não foi concluído. “Teoricamente, a inocência dele ainda não foi efetivada, porque a Justiça do Maranhão é muito lenta”, contou o advogado Manoel Serrão. Por conta do tempo que passou preso, Robério ingressou em 2006 com uma ação de indenização contra o Estado do Maranhão. No processo, ele não cita valores. Quando questionado a respeito, é categórico. “Nenhuma quantia seria capaz de me devolver o que perdi. Meus filhos cresceram sem o pai. Minha família foi humilhada, xingada. Meu pai não aguentou e morreu. Eu não durmo direito. Até hoje sonho que estou na cadeia, preso na cela e acordo apavorado. Eu ainda carrego a carga de ser um ex-presidiário. Que dinheiro pode me devolver os anos que perdi e os momentos que deixei de viver?”
 
Segundo o advogado Rodolfo Régis Nogueira Cabral, o processo de indenização está suspenso à espera da revisão criminal.
 
O verdadeiro assassino
Considerado o maior assassino em série do Brasil, o mecânico Francisco das Chagas Rodrigues de Brito confessou ter assassinado 42 meninos com idades entre 4 e 15 anos no período de 1989 a 2003, quando foi finalmente preso. Os primeiros 12 crimes ocorreram em Altamira, no Pará. Os outros 30 depois que ele se mudou para São José do Ribamar, no Maranhão. 
 
Francisco escolhia suas vítimas em bairros pobres. Costumava atrair os meninos com promessas de ir apanhar frutas ou caçar passarinhos. Levava sempre as vítimas para uma mata fechada. Lá, as matava asfixiadas ou com pedras. Depois, na maioria dos casos, cometia abusos sexuais com o cadáver. Em seguida, arrancava o pênis das vítimas com um canivete. Por conta disso, seus crimes ficaram conhecidos como “Os meninos emasculados”. Era comum que também cortasse partes do corpo como dedos, orelhas e nariz para guardar como lembrança. 
 
Francisco foi descoberto em dezembro de 2003, depois de assassinar um rapaz de 15 anos que era seu vizinho. Ao investigar o caso, a polícia descobriu dois corpos enterrados em seu quintal. Foi o que bastou para que ele confessasse os assassinatos. Entre eles, o de Júlio.
 
Segundo os advogados de Robério, ao confessar, Francisco forneceu detalhes impressionantes sobre o crime, como local e posição exata do corpo, a maneira como matou o garoto e ainda as marcas que deixou, detalhes que não foram divulgados pela polícia e que apenas o assassino poderia saber. 
 
Pela morte de Júlio, Francisco foi julgado e condenado em 2009. Hoje, ele cumpre pena no Presídio de Pedrinhas. Ao todo, pelas condenações em três crimes, ele já soma 385 anos de prisão. 

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