‘Não levaria meu filho lá nem para uma consulta’, diz médico do PSI


| Tempo de leitura: 3 min
O pediatra Márcio Cândido Batista em depoimento à CEI da Saúde, ontem: ‘O Pronto-socorro Infantil está na UTI, está morrendo’
O pediatra Márcio Cândido Batista em depoimento à CEI da Saúde, ontem: ‘O Pronto-socorro Infantil está na UTI, está morrendo’
O médico pediatra Márcio Cândido Batista trabalha no Pronto-socorro Infantil há quase 15 anos. Nesta quarta-feira, ele afirmou que a situação no local é calamitosa. “O PS Infantil está na UTI, está morrendo.” A afirmação foi feita durante seu depoimento na CEI (Comissão Especial de Inquérito) aberta pela Câmara Municipal de Franca. Durante cerca de uma hora, o pediatra narrou episódios de agressão física, sobrecarga de pacientes e descaso por parte do Poder Público. Por fim, ao ser questionado sobre os riscos para as crianças que as condições estruturais do PS oferecem, resumiu: “Eu não levaria meu filho lá nem para uma consulta”.
 
Segundo o médico, os problemas de falta de higiene e infestação de animais, como ratos e baratas, no PS são antigos. “Desde que comecei a trabalhar lá, em 1999, é assim. Me estranha ninguém ter falado sobre isso antes.”
 
Ele ainda disse que, por diversas vezes, os funcionários do PS informaram a Secretaria Municipal de Saúde sobre a situação do prédio. “Nunca ninguém fez nada. Precisou chegar a uma situação calamitosa como esta para que as autoridades prestassem atenção no PS.”
 
O médico ainda narrou que os episódios de confronto entre parentes das crianças irritados com a longa espera por atendimento e os profissionais do PS são comuns. “As agressões e o desrespeito acontece com todos nós que trabalhamos lá. Eu mesmo já fui agredido fisicamente duas vezes por pais de pacientes.”
 
Na última segunda-feira, por pouco, não houve uma terceira agressão. “Estávamos em cinco médicos, mas a espera por atendimento era grande. Quando cheguei tinham mais de 80 crianças doentes na fila. Acabou que quase fui espancado.”
 
Por conta deste tipo de ocorrência, os funcionários, segundo o médico, já pediram segurança. “Lá, não tem um guarda, uma tranca. E sempre que pedimos segurança, ouvimos como resposta que é para mandarmos um ofício. Mas nunca temos resposta.”
 
Ontem mesmo, durante a oitiva de Batista, a Polícia Militar foi chamada ao PS Infantil. Pais estavam revoltados com a demora no atendimento, que chegava a cinco horas, e a PM foi até o local acalmar os ânimos.
 
“Ali não é ambiente para qualquer um. Tem que ter estômago ou amar muito o que faz. Já vi médicas saírem de lá chorando e não voltarem mais”, resumiu Batista.
 
A respeito das denúncias recentes feitas pelo Comércio, o médico disse que não foi tomada nenhuma providência. “O que mais queremos é trabalhar com dignidade. Franca está uma vergonha em termos de Saúde Pública.” 
 
Laudo contestado
Outro médico a depor ontem foi o cirurgião Carlos Augusto Donadelli, que trabalha na Santa Casa de Franca. Ele foi um dos médicos que atenderam a jovem Luara Prieto, 25, que morreu depois de passar oito vezes pelo Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, ser internada duas vezes na Santa Casa e sofrer duas operações. 
 
Assim como seu colega Edson Teixeira Pinto Abreu fez na semana passada, ele também contestou o laudo emitido pelo IML (Instituto Médico Legal) assinado pelo legista Mauro Tozzi, que apontou como causa da morte de Luara uma hemorragia. “Ela tinha feito exames horas antes de morrer. O que eles mostraram é incompatível com um choque hemorrágico. Além disso, ela tinha um dreno no abdômen. Se tivesse uma hemorragia, ela teria aparecido.”
 
Sobre o fato de o laudo da necropsia não ter encontrado sinais de infecção, ele disse que provavelmente houve um erro. “Nem por um milagre, seria possível que todo o processo inflamatório sofrido por Luara desaparecesse em dois ou três dias. Eu tive a sensação de que o laudo estava falando de alguma outra pacientes.”
 
Para ele, todas as condutas médicas adotadas no caso da Luara foram corretas. “Concordo com as condutas que foram tomadas. Não acredito que tenha havido prejuízo ou erro.”
 
O médico também confirmou a falta de leitos no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) da Santa Casa de Franca e as confusões envolvendo profissionais do Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, do hospital e da regulação de vagas de internação. “A gente sempre escuta histórias de colegas falando sobre casos que não deveriam ter sido enviados para Santa Casa. Logicamente, o sistema de regulação tem falhas”, afirmou Donadelli.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários