Justiça suspende baixa da represa de Delfinópolis


| Tempo de leitura: 5 min
Cenário ameaçado
Cenário ameaçado
As Prefeituras de Delfinópolis, Passos e São João Batista do Glória conseguiram ontem, na Justiça Federal de Minas Gerais, uma liminar proibindo Furnas de reduzir o nível da represa Mascarenhas de Moraes. O documento determina a suspensão imediata de qualquer medida que tente abaixar o reservatório até que a empresa apresente motivos, planos e cronogramas sobre a ação. Segundo o documento, a decisão teve por base dados técnicos que demonstraram “a alta probabilidade de prejuízos para a saúde pública, o direito de ir e vir, atividade econômica, o meio ambiente e abastecimento de água.” 
 
Caso haja descumprimento da medida, Furnas estará sujeita a multa diária de R$ 50 mil. De acordo com o consultor jurídico da Prefeitura de Delfinópolis, Neisson da Silva Reis, da liminar cabe recurso por parte de Furnas, mas já é válida a partir do recebimento da decisão. 
 
Nos últimos dias, um misto de tristeza e preocupação tem assolado Delfinópolis  com o rebaixamento da represa feito por Furnas, a pedido do Governo Federal. A intenção é rebaixar o nível da água em 13 metros. Segundo Furnas, o rebaixamento ocorre em razão da estiagem e tem por objetivo ajudar na recuperação do reservatório de Furnas, que está com apenas 28% de sua capacidade. A operação visa ainda a manter o fornecimento de energia elétrica para o período da Copa do Mundo.
 
Antes mesmo do ato se concretizar por total, a medida causou revolta e alterou o cenário. A população e agricultores da cidade dizem que a água já está três metros mais baixa que o habitual. Quem chega à balsa para realizar a travessia sentido a Delfinópolis estranha o leito mais distante e uma faixa de areia às margens, que antes ficava encoberta. Também recebe a informação de que, em breve, o porto existente do outro lado será desviado e o trajeto de 1,6 mil metros na água cairá pela metade, aumentando o percurso na terra.
 
Na cidade, na conhecida prainha, troncos de árvores estão à mostra e uma vegetação, que agora ficou visível, bloqueia a passagem de embarcações. “Anteriormente a gente conseguia atravessar. Hoje, além da vegetação, tem o risco de a lancha encalhar, pois a água abaixou muito”, lamenta o agricultor Lucas Souza, 33, acostumado a navegar pela represa. Em alguns pontos do lago, apenas um filete d’água encobre o fundo, e a previsão é que a água sumirá por completo, deixando muitos ranchos secos.
 
“Não vamos ficar de braços cruzados esperando a água baixar. Os prejuízos previstos são imensos”, disse o vereador Mauro de Assis (PDT). A liminar é apenas uma pequena vitória que não elimina a preocupação dos moradores e empresários da cidade.

‘Turistas irão sumir’
Porta de entrada para a Serra da Canastra, Delfinópolis também pode ter perda de turistas. Além da represa mais baixa, a dificuldade para acesso ao município devem afastar os visitantes.
 
Segundo Messias Marcelino Lopes, proprietário da Casarão Pousada, os 25 leitos de seu estabelecimento correm o risco de ficar mais tempo ociosos. “Com certeza, teremos queda no número de turistas. As pessoas vão ficar sabendo que a represa está mais baixa e acabarão escolhendo outro destino.”
 
Há 20 anos no ramo, Lopes juntamente com a mulher Ilza ainda não pensou em uma alternativa para atrair os turistas. “Temos que aguardar, para o ver o que irá acontecer, mas o impacto será inevitável.”
 
Para piorar, a travessia na balsa, que muitas vezes acaba afastando os turistas devido às longas e demoradas filas, pode ganhar mais um agravante. Com o desvio de um dos portos, parte do trajeto sentido Delfinópolis deverá ser feito por estrada de terra.
 
256 ton de peixe perdidas
Grande fornecedora de tilápias, Delfinópolis também poderá perdas na piscicultura. Criadores que utilizam a represa para a instalação dos tanques temem mortandade e encerramento do negócio. A baixa da represa em 13 metros pode deixar 320 tanques secos e provocar uma perda de 256 mil quilos de peixe.
 
Para quem vive dessa criação, não há alternativa. “Diferente do gado, o piscicultor não consegue vender um peixe filhote. Há todo um cronograma, um peso ideal”, disse o engenheiro agrônomo da Emater, Sávio Marinho.
 
Ainda na agricultura, ele também aponta possível prejuízo para os produtores de café que utilizam irrigação em 143 hectares e para os pecuaristas. “Vai haver muita morte de animais que ficarão atolados quando forem em busca de água.” O agricultor Lucas Souza aponta ainda que a baixa na represa fará nascer a necessidade de construção de cercas. “Hoje a represa funciona como cerca natural. Com o nível mais baixo, os limites irão mudar.”
 
Banana sem água
Principal produto da agricultura de Delfinópolis, a banana poderá ter reflexos com a redução do nível da represa. Com 990 hectares irrigados no município, a produção sofrerá baixa e postos de trabalho poderão ser extintos.
 
Responsável por grande parte da produção local, a empresa Brasnica tem 300 hectares de bananas irrigados e emprega 140 funcionários. Segundo o gerente da unidade, Arnaldo Yuji Oda, um dos fatores que atraiu a empresa para a cidade foi a disponibilidade de água. “Fizemos um alto investimento e temos uma produção anual de 30 toneladas por hectare. Não sei como ficaremos sem poder usar a água da represa.”
 
Para o engenheiro agrônomo da Emater, Sávio Marinho, haverá dificuldade para os produtores da cidade honrarem seus compromissos de financiamento para custeio das lavouras e implantação da irrigação. “Houve incentivo do Governo para a produção e não usamos a água sem autorização. Temos outorga de direito de uso.”
 
Esgoto
Sem estação de tratamento, o esgoto gerado pela população de Delfinópolis é lançado diretamente em quatro pontos da represa do rio Grande. Com a baixa do nível da água, o esgoto deverá ficar mais exposto e aumentar a proliferação de insetos e doenças.
 
A preocupação foi levantada pela dentista e especialista em saúde pública Silma Assunção Melo Lopes. Segundo ela, o mau cheiro também aumentará e fungos e outros vermes ficarão mais visíveis. “Além do prejuízo econômico, a saúde será prejudicada.”
 
Silma teme ainda o surgimento de dezenas de poças de água, o que provocará a morte de peixes e o surgimento de insetos. “A água ficará parada, o que aumenta as chances para o surgimento de várias doenças.”
 
De acordo com Silma, até mesmo o acesso por terra afetará a saúde da população. “Com o desvio por terra, é certo que teremos muitos problemas respiratórios.”
 
Clique na imagem para ampliar:

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários