Ser polícia


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Mostro hoje, desabafo do delegado Fernando Santiago, no Facebook: “Foi assassinado o capitão Mata, que comandou a PM na região em que trabalho, o bairro dos Pimentas em Guarulhos. Eu o conhecia. Era polido, aprazível e respeitador, típico ‘gente boa’. As vezes, estrelas (oficiais) e majuras (delegados) não se dão bem, mas não era nosso caso. Mata era policial como eu. Era branco e sua morte não interessou aos que lutam por igualdade racial. Era heterossexual e sua morte não interessou aos que lutam por direitos homossexuais. Não era bandido e sua morte não mereceu o olhar dos direitos humanos. Não morava em favela,ou periferia, e sua morte não foi notada por sociólogo ou ‘Reginas Cazés’ da vida. Era policial (e seus colegas não atearam fogo em ônibus), outro motivo para ninguém lamentar sua morte. A policial militar Fabiana Aparecida, morta covardemente em UPP no RJ, era mulher e sua morte não interessou a grupos feministas; negra, e não interessou a defensores da igualdade racial, tinha vida humilde mas não mereceu atenção de sociólogo que luta pelo fim de classes sociais. Como Mata, era só humana, e assim, sua morte não mereceu, como a dele, interesse do pessoal dos direitos humanos. Aconteceu também com o perito de Osasco, Nicolau Constantini, e meus colegas de Academia de Policia, dr. Leonardo Mendonça e dra. Denise Quiroga, mortos em serviço. Para grupos de direitos humanos, uns humanos valem mais que outros. O pior é a escolha dos critérios que determinam o valor de cada um. No caso de policiais, suas mortes merecem valor menor que a de um integrante de minorias, ou até mesmo de um criminoso. Ninguém merece ser assassinado, nem negros nem brancos; nem ricos, nem pobres; nem homossexuais, nem heterossexuais; nem bandidos nem policiais. Capitão Mata foi mais um que escolheu o duro ofício de proteger a sociedade de criminosos e pagou com a vida, sem merecer atenção à altura da morte daqueles que combateu. Deixa mulher, três filhos e um enteado, todos igualmente esquecidos’. Pois é. Neste Brasil que inverteu as coisas, ser ou não ser ‘polícia’ determina quanto vale a morte do indivíduo. 
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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