Violência explode e deixa rastro de medo e insegurança em Franca


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Imagem meramente ilustrativa
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A noite do último dia 21 de abril ainda é repassada, detalhe a detalhe, na mente da servidora pública Ana Maria*, de 35 anos. Ela chegava em casa com o marido e os dois filhos, uma menina de 4 anos e um bebê de seis meses, quando teve o carro abordado por quatro bandidos armados. Sob a mira de um revólver, a família viveu momentos de terror. Os ladrões promoveram um verdadeiro limpa na casa. Levaram joias, computadores, celulares e outros objetos de menor valor. Deixaram o medo e a sensação de insegurança. 
 
Quase um mês depois da fatídica noite, Ana ainda não conseguiu retomar sua rotina. Vive refém do medo. “Não chego em casa sozinha depois que anoitece. Mesmo a qualquer hora do dia, o simples bater de uma porta dispara meu coração. Desde que tudo aconteceu, não consigo dormir. Acordo com a sensação de sufocamento no meio da madrugada.”
 
Para ela, o mais difícil tem sido lidar com o trauma provocado na filha de 4 anos. “Ela ainda sofre. Durante o assalto, ela se apavorou e começou a chorar. Eu, desesperada, tentava tapar a boca dela para que o choro não despertasse a raiva dos bandidos. Fiquei com muito medo de ela ser morta, um medo que não tem tradução. Ela acabou vendo meu desespero.”
 
Hoje a menina não dorme mais sozinha. Tem medo das pessoas. Isolou-se dos amigos na escola, mal conversa. “Mesmo eu dizendo que os bandidos foram presos, o que é mentira, ela diz que existem outros por aí. É muito cruel ver uma criança de 4 anos tendo de lidar com a violência”, diz Ana, que está à procura de tratamento psicológico.
 
Em outro ponto, no Centro de Franca, a aposentada Vânia* conhece bem o que é viver com medo. Ela e sua família foram vítimas de um assalto no dia 9 de maio. O autor era conhecido. Um rapaz que havia prestado serviços na residência tempos atrás e um amigo invadiram a sala de Vânia. “Eu estava assistindo novela. De repente a porta abriu e dois homens surgiram. Espantada perguntei o que eles estavam fazendo. Já com a arma apontada para a minha cabeça, anunciaram o assalto.”
 
Vânia reconheceu um dos autores e relata o medo que sentiu de morrer. “Ele colocou a arma na minha cabeça, eu sentia o revólver em mim. Ele dizia a todo momento que queria muito dinheiro. Eu só tinha R$ 300 na carteira. Fiquei apavorada.”
 
Trauma
Para piorar, o neto de 12 anos da aposentada estava na casa e, com a confusão, foi verificar o que acontecia. “Quando meu neto surgiu, ele passou a ameaçá-lo. Dizia que se não conseguisse mais dinheiro ia matá-lo. Eu não sabia o que fazer quando ele colocou o revólver na cabeça do garoto. Depois nos arrastou para o quarto onde meu marido dormia. Ele o acordou com a arma.” Depois o bandido amarrou os três com cadarços de tênis que haviam no cômodo. 
 
Mesmo com todos amarrados, as ameaças continuaram. “Eles diziam que iam voltar, que sabiam detalhes da nossa rotina e, se a gente os denunciasse, iriam tirar a vida do meu neto. O tempo todo com a arma apontada para a cabeça de alguém. Eu entrei em choque.”
 
Depois de pegarem joias, televisores, celulares, videogame e computadores, os dois trancaram a família na casa e fugiram com o carro que estava na garagem. “Ele olhou para mim e disse que devolveria o carro em Ibiraci na manhã seguinte e reforçou a ameaça para não chamarmos a polícia.” 
 
Assim que saíram, com um pouco de esforço, o neto conseguiu se desamarrar e desamarrar os avós. Vânia ligou, então, para o seu irmão. “Não tive coragem de chamar a polícia.” Foi o irmão que acionou os policiais. Mas os bandidos continuam livres.
 
Vânia também luta para voltar à rotina. “Fiquei todo esse tempo quase sem comer, apenas chorando e rezando. Não queria sair de casa por medo. Eles estão soltos, então, eu ainda temo pela vida do meu neto. Não consigo esquecer. Revivo aquilo tudo a todo momento”, contou chorando.
 
Ela mora com a família na mesma casa há 41 anos. “Nunca pensei que fosse dizer isso. Mas hoje eu quero mudar. Já decidimos que vamos vender essa casa que sempre foi minha vida, mas, infelizmente, não consigo viver tranquila aqui.”
 
Estatísticas
Os dramas vividos pelas duas famílias engrossam as estatísticas de segurança da cidade. Nos três primeiros meses deste ano, os francanos viram o número de roubos envolvendo violência e ameaça crescer quase 40%. Segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública, de janeiro a março deste ano, foram registrados em Franca 232 roubos, quase três por dia. É o maior número desde que a secretaria começou a fazer o acompanhamento dos registros em 2011. No ano passado, nos primeiros três meses, esse total foi de 169, 37,3% menor que agora em 2014. 
 
Para o delegado chefe do serviço de inteligência da Polícia Civil, Daniel Radaeli, o crescimento é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles, o aumento no uso e no tráfico de drogas, a falta de uma legislação mais rígida e até o déficit de policiais que a cidade enfrenta (leia mais ao lado). 
 
Os dois roubos narrados estão sendo investigados pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais), mas ninguém foi preso ainda. 
 
*Os nomes são fictícios para preservar a identidade das vítimas a pedido delas. 
 
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