Li a respeito de dois alpinistas que atingiram seu objetivo, numa escalada recente.
O que faz esses aventureiros arriscarem a própria vida apenas para estar no topo de uma altíssima montanha?
Aí é que deve estar a questão. Não deve ser “estar APENAS no alto de uma montanha”. O gesto deve significar algo muito mais precioso para a alma humana.
O autêntico alpinista deve adorar a paz das grandes altitudes. Naquela solidão, o suporte da mochila range, a neve deve gemer debaixo dos pés. Deve-se falar pouco: o esforço é demasiado para se falar. Às vezes, uma avalanche pode desprender-se de um rochedo e rolar encosta abaixo em ruidoso turbilhão.
Imagino um momento de pausa nas alturas.
O homem, de cócoras, apoiado na encosta, admira a paisagem majestosa em volta. O ar puríssimo e gelado traz o suave tilintar distante de um sino pendurado no pescoço de algum animal, lá embaixo, no vale.
O montanhista está, nessas ocasiões, em seu elemento, e boa parte de sua satisfação provém do fato de pensar que o perigo espreita de todos os lados, que sua vida está em xeque a todo o momento.
Não subi ao Monte Everest. E penso que da minha idade de hoje para diante isto vai se tornando cada vez mais impossível. Apenas tenho vivido entre os homens, cobiças, invejas, ciúmes, tramas e algum companheirismo. Viver na sociedade competitiva de hoje equivale, guardadas as proporções, a escalar uma montanha, em face dos constantes desafios. Todos nós queremos ver se chegamos ao topo, não apenas do serviço formal, mas muitas vezes nas questões pessoais e familiares.
Na realidade, um indivíduo não conquista a montanha, ou não vence apenas na vida: conquista-se a si próprio e vence as próprias paixões.
Na montanha, como na vida, a gente vence o enjoo e tudo o mais (as dores, as tonturas, os temores, as traições, as competições) para chegar ao topo. O homem melhora muito quando se depara com desafios e dores interiores. Aliás, nós precisamos ser intensamente, continuadamente estimulados por desafios: faz parte da natureza humana.
Dois santos de uma só vez
Perguntaram-me sobre a construção de um título estampado num jornal da cidade: “O Papa canoniza dois santos.” Já sabia que os dois santos eram os papas João XXIII e João Paulo II, recentemente elevados à honra dos altares.
O verbo canonizar significa inscrever nos cânones, na lista dos santos. Ora, se a notícia diz que os dois são santos, então eles já tinham sido anteriormente canonizados. Não há como canonizar santos. Melhor teria sido, portanto, escrever que A Igreja canoniza dois papas.
Houve papisa?
Um assunto puxa outro: papa tem feminino papisa. Vi um dia destes, na televisão, em canal pago, o triste filme A papisa Joana, que conta a história milenar de uma religiosa inglesa, cheia de fé e de virtudes, que teria chegado a sentar-se por dois anos no trono de São Pedro, ocultando, enquanto possível, sua condição de mulher. São grandes as controvérsias sobre sua própria existência, quanto mais sobre sua escolha como papa pelos religiosos e pelo povo de Roma. Mas o filme é tocante.
Alta definição
Acompanho a decisão de um torneio espanhol de futebol também por um desses canais de TV paga, em que se pode ler até a marca da cueca dos jogadores. Admiro não só a nitidez da imagem, mas também o aspecto do público assistente, nesta primavera europeia: a grande maioria dos homens com paletó e gravata (aqui eu me lembrei de ser assim o público torcedor na década de 1950, no estádio Coronel Nhô Chico, quando a Francana era time de futebol e jogava bonito!)... As mulheres, no tal campeonato espanhol na TV, vestidas até com certo luxo; crianças saudáveis e bem protegidas do frio. E isso na Espanha, um país em crise.
Penso no triste aspecto da maioria das pessoas frequentadoras de nossos pobres estádios, alguns obrigados a se enquadrar no tal padrão Fifa, que terá desaparecido menos de um ano após a Copa 2014. O que fazer, então, com tantos estádios monumentais vazios e tantos hospitais cheios de pacientes sem assistência?
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