O craque


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Início da década de oitenta. Após o mandato do Maurício elegeu-se o Sidnei. Meu diretor na Secretaria de Planejamento era o Ary Balieiro. Gilson de Souza e Roberto Engler eram vereadores. O Engler batia uma bolinha razoável, agora o Gilson enganava direitinho, tanto é que a turma do futebol escolhia primeiro o Engler para inscrever na equipe; o Gilson, muita simpatia e pouca bola, ficava para completar os times mais fracos. 
 
Todos os anos era organizado um campeonato de chacrobol interno entre os funcionários municipais, dividindo-se os times por departamento. Existia uma rivalidade grande entre as duas equipes mais fortes que eram formadas por atletas do Planejamento e da Emdef. Quase sempre as duas disputavam o título e vez por outra chegava também o Departamento de Obras à final do torneio. Lógico, como nas grandes equipes profissionais, nesse torneio amador também em cada equipe despontava um jogador mais técnico e habilidoso. E nesses a marcação era mais cerrada, ou se preferirem na gíria futebolística, o pau comia solto. A equipe da Emdef também tinha o seu, que se destacava não só pela técnica, mas pelo fairplay. Educadíssimo, coisa rara em futebol, nunca revidava os pontapés que tomava. Jogava quieto, com classe apurada ia fintando os adversários até sofrer as faltas duras que o levavam ao chão. Levantava sereno, calado, não reclamava dos adversários nem da arbitragem, enfim, um cavalheiro jogando o mais limpo e belo futebol com lampejos de gênio. Diria até que poderia ter se tornado um profissional do futebol com certeza. E se coubesse comparação eu o definiria com um Ademir da Guia, sem dúvida alguma, pelo estilo, leveza e elegância no trato com a bola. 
 
Assim era também no dia a dia com os companheiros e funcionários municipais. Sempre de maneiras cordiais, tratando a todos, do diretor ao faxineiro, no mesmo modo, com educação e um sorriso no rosto. 
 
Recordo de uma final de campeonato entre o Planejamento e a Emdef. Meus companheiros decidiram que o nosso time iria marcá-lo com mais vigor, ou seja, iriam pegá-lo na botinada mesmo, assim, não deixando o craque jogar livre, ou mesmo tirando-o de campo. Ficaria mais fácil vencer a grande final e conquistar o troféu de campeão. A Emdef também tinha um brutamontes que mais parecia um tanque de querra. No corpo a corpo com ele era o mesmo que trombar com uma parede de concreto. No primeiro ataque do nosso time fintei-o, a bola passou, eu de corpo franzino fiquei estatelado na grama. E o craque do outro time também era caçado em campo, se passava pelo primeiro marcador, ficava no segundo. Era falta atrás de falta. Único jeito de parar seu futebol habilidoso. Haja cartão amarelo, pressão sobre o juiz e reclamações. Final de jogo e vitória do Planejamento. Com as meias arreadas, canelas vermelhas cheias de calombos, lá vem o moço da equipe adversária. Cabisbaixo ? Não, cansado apenas, mas com um sorriso no rosto cumprimentando um a um o nosso time pela conquista, deixando nossos zagueiros com uma pontinha de remorso por terem lhe dado tanto pontapé. Era mesmo um cavalheiro, craque na bola e na educação, transmitia respeito, liderança, sinceridade e outras tantas virtudes próprias de um homem de bem. 
 
Mudei-me para Ribeirão Preto, muito tempo se passou. Não o vi mais durante uns vinte anos. Recentemente encontro-o novamente, os cabelos brancos como os meus, o mesmo sorriso, a mesma simplicidade, simpatia e generosidade. Não mudou, apenas amadureceu as virtudes que já eram inerentes ao seu caráter quando moço. A habilidade, a técnica e a inteligência dos campos de futebol ele agora as usa a favor da Ordem Maçônica, como membro atuante e Deputado Maçônico na Assembleia Legislativa autônoma e eleita pelas Lojas. 
 
O craque Daniel Carrijo não mais corre atrás da bola, dedica seu tempo extra aos serviços da Ordem dos homens livres e de bons costumes. Eu, que particularmente nunca o enxerguei como adversário no futebol quando moço, hoje, no jogo da vida, tenho o privilégio de vê-lo como irmão, um craque maduro que não pendurou as chuteiras e segue ditando o jogo no gramado das virtudes ! 

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