Chance histórica


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A CEI da Saúde, instalada pela Câmara para apurar irregularidades na saúde pública municipal já tem um mérito relevante: está, pelos personagens convocados a falar, escancarando as entranhas desse serviço essencial à vida. Os usuários da saúde municipal, gente simples que não tem plano de saúde privada e necessitados de cuidados de saúde com qualidade e respeito, têm sido citados - integram os milhares de atendimentos/ano que a saúde francana bandeira, politicamente, à cada fim de ano - mas, não como humanos que recebem tratamento digno, e sim, como parte dos números. Para valer mesmo, está mal, descrente, preocupado. 
 
Consulta aos comentários que leitores deste Comércio - e que publicamos no portal GCN.net e na seção de ‘Cartas’ - confirmam. Há queixas sobre descaso, péssimo atendimento,. Afinal, as pessoas perderam o posto de personagem principal e se tornaram só estatística. Quanto mais gente, melhor. Os depoimentos que estão acontecendo na CEI deixam claro: as estatísticas de milhares e milhares de atendimentos/ano, divulgadas sob foguetório, são consultas de dois minutos (em média), feitas por profissionais motivados a buscar só produtividade! A explicação é simples e trágica: quanto mais consultas, maior o ganho em horas-extras! 
 
Que os vereadores integrantes da CEI não se desviem, não tenham medo e caminhem até o fundo do poço. É preciso aproveitar essa oportunidade histórica. Os convocados a falar, estão falando(!!!!). Não me lembro de algo semelhante em meus 45 anos de jornalismo! Então, essa é a hora. A população não perdoará quem que se furtar a continuar investigando. Muito está sendo dito nas entrelinhas, seja lá qual for a motivação - médicos da Santa Casa têm relações conflituosas com médicos do PS, e que, por causa disso, internações necessárias podem não acontecer, conforme contou a médica Paula Borges, apoiada por dois outros profissionais do PS; agentes do SAMU não confiam em médicos do PS, conforme se pode constatar ouvindo gravações internas do SAMU, como disse o médico Edson Pinto, da Santa Casa; que o IML errou no laudo sobre a morte de Clésia Novais, atestando morte por hemorragia contra a causa real, infecção, também feita pelo dr. Edson; que não há enfermeiros em número suficiente para atender a demanda do PS; que há jogo de vaidades entre profissionais médicos do PS, e que por causa disso, ou não, Clésia Novais teve alta médica, ou não; que a indústria de horas-extras (que, no fundo, repito, é que gera os números altíssimos e fantásticos de atendimentos públicos em Franca) seja punida de forma a ressarcir os cofres públicos, e acabar com a mentira dos atendimentos ‘humanos e dignos’, que, no fundo, todos sabem que não existem. O que já se tem, segundo minhas fontes, é apenas a ponta do iceberg. Não haverá outra oportunidade. O povo deve ficar atento e não permitir que o assunto morra. É questão, como sabemos, de vida ou de morte!
 
SOBRE COMPETÊNCIAS: O rastilho de pólvora começou a queimar quando o Ministério do Trabalho constatou a ‘indústria das horas extras da saúde’. O Ministério Público exigiu explicações da Prefeitura. Mortes de pacientes ocorreram na rede. O caso explodiu. A Câmara aprovou a CEI. Se antes, personagens da saúde e administradores municipais se furtavam a falar sobre questões internas, ou só o faziam em salas fechadas, com a CEI, mazelas vieram à tona. Virá mais. Há personagens-chave que ainda serão convocadas. Repito: pela primeira vez, os convocados, até porque têm que se defender, estão falando. Assusta saber que os vereadores que lideram a CEI não sejam especialistas, que possam se atrapalhar com tanta informação, e que gravíssimos fatos agora públicos se percam. A CEI termina em 13 de julho, pouco tempo para relatoriar e, pior, tempo menor ainda para apurar e aprofundar as investigações. Se alguém tem sugestões, que se manifeste. 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comercioafranca.com.br

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