Desde quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, em 2007, que o Brasil havia conquistado o direito de sediar a Copa de Mundo de Futebol, imprensa e especialistas deixaram claro: ao contrário do que o chefe do Executivo federal afirmara, o grosso dos gastos com estádios sairia dos cofres públicos. Lula, então, bateu o pé e garantiu que não. Porém, o que se vê hoje são estádios superfaturados, deixando uma conta superior a R$ 7 bilhões para o contribuinte brasileiro pagar. E muitos deles, certamente, com a perspectiva de se transformarem em “elefantes brancos” em pouco tempo.
Para a Copa do Mundo, entre financiamentos do governo federal (R$ 3,9 bilhões), investimentos diretos dos governos locais (R$ 3,9 bilhões) e de entes privados como times de futebol e construtoras (R$ 133 milhões), os estádios da Copa custaram até agora cerca de R$ 8 bilhões. Como se pode ver, uma conta alta e salgada principalmente quando se sabe que este dinheiro poderia fazer muito bem para a melhoria dos serviços públicos, a principal reivindicação das manifestações que voltam com força total a menos de um mês para a abertura do Mundial da Fifa.
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, vem percorrendo as 12 cidades-sedes da Copa para dialogar com movimentos sociais e grupos que organizam manifestações contra a competição futebolística no Brasil. Já passou por dez cidades e em algumas delas, como São Paulo e Rio de Janeiro, enfrentou protestos durante as próprias reuniões. Anteontem, diante das manifestações ocorridas em 15 grandes cidades do País, inclusive São Paulo, Rio de Janeiro, e Brasília, Gilberto Carvalho garantiu que os protestos “não preocupam” o governo. Ontem elas voltaram a acontecer em Guarulhos. Carvalho busca encontrar culpados pela movimentação. Segundo ele, não há protestos contra a Copa. E, além disso, imputa a culpa de tudo a fatores outros que não a insatisfação popular com a administração de Dilma Rousseff — o que já está explicitado na queda da popularidade da presidente. Ele tenta justificar os gastos com os estádios e deixa claro que o governo federal falhou em mobilizar a iniciativa privada para bancar os gastos. Porém, sete anos atrás já se aventava essa possibilidade, negada veementemente pelo governo. Hoje se vê quem estava com a razão.
As declarações deixam claro que não houve planejamento. Faltaram estudos sobre o impacto que a Copa teria no Brasil, principalmente no que diz respeito à sangria dos cofres públicos. Carvalho diz que parte da culpa dos protestos contra a Copa é de uma parcela da imprensa brasileira, que só noticia aquilo que é negativo. Volta-se ao discurso governista de que jornais, rádios e TVs “não dão notícia boa” e influem na percepção popular. Não é culpa da imprensa termos hospitais sucateados, escolas sem as mínimas condições de abrigar os estudantes brasileiros e um transporte público de qualidade ruim. Para estes, R$ 8 bilhões seriam muito mais bem-vindos. Deve-se, antes de tudo, tratar com maior responsabilidade o dinheiro do contribuinte, que deve ser revertido a favor dele mesmo.
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