Pelas ruas de Kuala Lumpur, veem-se estampadas mensagens de apoio às famílias dos passageiros do voo MH 3700. Passados mais de dois meses, o desaparecimento do avião da Malásia Airlines continua um mistério. Informações oficiais são escassas — e não raro ambíguas. Associadas ao ineditismo do ocorrido, são a combinação perfeita para uma miríade de teorias conspiratórias sobre o paradeiro do avião.
Na Malásia, uma dessas explicações ‘extra-oficiais’ tem ganhado adeptos: os Estados Unidos seriam responsáveis pelo sumiço do avião que estaria levando para a China alguns dos drones — aviões não-tripulados — roubados do exército norte-americano no Afeganistão. Apesar de bastante fantasiosa, nenhuma das outras narrativas trouxeram panorama tão certeiro sobre o jogo de forças na região como essa.
Em primeiro lugar a versão revela a nova estratégia de combate introduzida pelos norte-americanos no Afeganistão, com emprego de drones, que envolve zero baixas para o lado que realiza o ataque e centenas, não raro, civis, para o lado inimigo. Ainda expõe um dos principais pontos de atrito nas relações bilaterais entre China e EUA, o de roubo de propriedade intelectual, que tem custado bilhões de dólares aos cofres norte-americanos. Principalmente, mostra o complicado balanço de poder no sudeste asiático, em que se vê a redução da influência norte-americana e crescente dominação chinesa.
Com o passar do tempo, diminuem as esperanças de que se encontre solução definitiva para o sumiço do avião. Mesmo sendo pouco provável que o destino do voo MH3700 tenha sido o que se ouve na boca miúda de Kuala Lumpur, não se pode negar que, para entender o caldeirão de instabilidades da geopolítica na Ásia, a versão traz um bom começo de narrativa.
Isabella Franchini Greb
Mestranda em Relações Internacionais pela USP. Francana, reside em Cingapura, no sudoeste asiático
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